
Ganhei de presente de minha filha, Marina, uma peça de porcelana que reproduz um bilhete escrito pela minha mãe, Maria Nívia, com aquela letra desenhada de professora de antigamente que só ela tinha.
Meu coração bateu mais forte ao abrir o pacote…
Fiquei feliz: a letra desenhada, como que saída de um antigo caderno de caligrafia, escrita em azul contra o fundo branco da porcelana me trouxe de volta um tempo muito antigo, passado ao lado de minha mãe na mesa da cozinha de casa, em Cruzeiro, quando ela, pacientemente, me ensinou a ler e a escrever.

Frente aos meus garranchos, a letra de Dona Nívia, como eu a chamava, letra de professora, me enchia de deslumbramento. Foi essa sensação, de puro deslumbramento, que emergiu em mim ao descobrir o conteúdo do pacote enviado por Marina. A ela, sou muito grato: obrigado, querida.
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Na quinta-feira, 22 de janeiro, fez 11 anos da morte de meu pai, Hélcio. Minha mãe morreu pouco antes dele.
Guardo muitas lembranças dos dois. Algumas físicas, como cartas, bilhetes, anotações em livros, relógios, quadros, um toca-discos dos anos 50, enfeites diversos. Do meu pai ganhei um radioamador usado pela FEB na Segunda Guerra. Da minha mãe, um punhal de prata, presenteado a ela pelo meu avô, José Olympio.
Mas as lembranças maiores são intangíveis: conversas que tivemos, o amor recebido, o tempo que passamos juntos, memórias etéreas que ajudaram a solidificar em mim a pessoa que sou hoje, seis décadas após vir ao mundo. Herdei deles o gosto pela vida, a paixão pela família, o amor pelos livros e uma teimosia pétrea, entranhada na alma e no DNA.
Só não herdei a caligrafia.