
O flâneur, o vagabond de Charles Baudelaire, século 19, era o andarilho que seguia pela cidade curioso, assustado e com olhar de estranhamento. Desconsolado com a ondulante multidão que surgia e fascinado pelas galerias comerciais abarrotadas de produtos industrializados.
Com olhar atento e despreocupado, experimentava novas sensações visuais e sons que logo se tornariam o excesso das grandes cidades. Como um detetive amador investigava a cidade, o acontecimento urbano moderno e, atraído pelo nascimento da sociedade de consumo, negava o consumo.
Mudanças na percepção do mundo propiciaram novas sensibilidades e narrativas reveladas e expressas por esses vagabonds apaixonados pela multidão que nela também se reconheceram como a vida, instável e fugidia.
Vagonautas nos espaços cíbridos
Existe um espaço qualificado onde existimos como se estivéssemos com um pé em cada canoa, com o rio que corre entre calmarias e turbulências e precisamos aprender a manter o frágil equilíbrio usufruindo do percurso vertiginoso.
Chamados espaços cíbridos, eles nos permitem uma experiência híbrida constante, a fusão dos mundos presencial e digital (postar fotos em tempo real nas redes sociais durante um evento físico, por exemplo) entre os nossos corpos biológicos e o ciberespaço.
O termo cíbrido foi criado pelo arquiteto Peter Anders para designar um meio híbrido onde se desenvolvem as práticas sociais relacionadas à cibercultura.
Curiosidade, anonimato e deriva são similaridades do flâneur/vagabond de Baudelaire e do vagonauta cíbrido também chamado de flâneur intervisual contemporâneo. Um analógico, o outro digital. É nesse campo que vivemos, onde o on e off se uniram.
Ali ficamos deslumbrados e reféns das visualidades e narrativas construídas que nos viciam e nos compensam com o transitório e superficial ao perambularmos por ambientes múltiplos.
Você pode gostar de ler: Um manifesto ao apocalipse light
Para usufruir desse sistema já intuitivo não precisamos desvendar seus mistérios e nem saber o custo que pagamos para estarmos imersos neles. Pouco importa, afinal, não tem mais volta, acabou a privacidade física e a mental está em fricção diária.
Concordamos que vivemos transformações diárias numa velocidade exponencial maior que o flâneur de Baudelaire assistiu. Consumo e consumidores desafiadores, hábitos novos, benefícios e malefícios da vida digitalizada, pluralidade e diversidade de pessoas, sexualidades, identidades, estão transformando a produção cultural e artística.
Mesmo atingidos pelo drama da guerra, das ruínas, a cultura e a arte permanecem, são uma necessidade humana como a Bienal de Gaza 2025.

“Mal necessário”
A arte contemporânea brasileira está desafiando estereótipos e preconceitos. Sofrendo ela mesma e os artistas preconceitos e perseguições às vezes vindo até de um artista que não se dedica a expandir seus diálogos e sim a reduzi-los. Triste personagem restrito e equivocado que circula acenando facilidades inexistentes. Não é um observador vagabond, criativo do cotidiano e sim um fofoqueiro sem plateia.
Antipatia, admiração ou rejeição pelo sistema, tanto faz, precisamos da arte e poesia e a persistência insaciável dos artistas e poetas, os vagabonds, vagonautas, que são capazes de transitar conscienciosos e brilhantemente entre o “mal necessário” e a empatia pelos seres humanos.
“A arte existe porque a vida não basta.”
(Ferreira Gullar)
A capacidade de realizar analogias e ultrapassar estereótipos lhes permitem desbanalizar nosso cotidiano, transcender a memória que se repete, ultrapassar camadas clichês e fakes.
Artistas e poetas se nutrem nesse espaço de inquietudes, perplexidades e pesquisas e nos apresentam a realidade de infinitas perspectivas, nos possibilitando o encontro essencial e fugaz de uma sensação, mesmo que banal, humana.
Camadas rígidas nas nossas percepções condenam o diferente, o questionador, o sensível em nome do “mal necessário” que seria aceitar o inaceitável para talvez ter algo melhor no futuro. É a tradução da incapacidade de sonhar coletivamente.
Artistas e poetas enxergam e criticam o “mal necessário”. Tornando-o matéria-prima, transitam com genialidade o campo criativo e sensível, são observadores apaixonados.
Muitos artistas já te sensibilizaram ou te colocaram fora da sua zona de conforto e você passou a carregar consigo um pouco daquele encantamento ou estranhamento momentâneo de uma música, uma história de um livro, um filme, uma pintura, etc.
Leia também: Garimpeiros chutam a gol no Vale do Paraíba
Espaço urbano, espaço digital, espaço cíbrido, espaço informacional, espaço híbrido. Espaço é um valor inerente ao trabalho de artistas e arquitetos, um campo para pesquisa e existência do que criam. Atentos, investigam e tensionam criativamente as virtualidades, atribuindo novos usos para as mesmas tecnologias.
Somos atentos na nossa cidade aos espaços indisponíveis fisicamente, vazios de conteúdos interessantes, tímidos, sem provocações estéticas, com respostas padronizadas.
Virtualmente somos herdeiros da arte do mundo todo, de todos os tempos, fisicamente já são outros quinhentos, ou bem mais.
Luiza Irene Galvão
Entre essas duas canoas, on e off, existe a produção local estocada com familiares de artistas que produziram e contribuíram para nossa cultura, lembrando com muito carinho da querida Luiza Irene Galvão que nos deixou recentemente.
Pintora, pesquisadora, educadora, divertida, filosófica, firme nas suas posturas defendia o que acreditava ser importante para a arte e cultura de nossa cidade.
Participou juntamente com os artistas Sonia Oliveira, Eliane Borges, Estevão Nador, Hermelindo Fiaminghi, Décio Pignatari, Alfredo Volpi e outros do Ateliê Livre de Pintura nos anos 60. Época também da Escola de Belas Artes criada e dirigida pelo artista Johann Gütlich.
São histórias que merecem ser contadas on e off. Estimulante pensarmos sobre espaços, temos tantos.
“Aos olhos da saudade como o mundo é pequeno”, Charles Baudelaire.
Para visitar atualmente em São José dos Campos
Arqueologia do Presente, projeto ARCO realizado no CAEB – Centro Ambiental Edoardo Bonetti em São José dos Campos. São três obras instaladas na natureza, realizadas por artistas da região que participaram da residência artística em 2025. Breve teremos mais seis artistas para mais duas residências artísticas que se desenvolverão durante o ano.
Mais de Pitiu Bomfin: