
Minha mãe, Maria Nívia, faria 102 anos neste 17 de dezembro.
Era uma data que trazia a ela dois sentimentos conflitantes: a felicidade de festejar aniversário, ela, que adorava gente, festas e confraternizações; e o lamento da data cair tão perto do Natal, o que lhe rendia, quando criança, uma redução drástica no número de presentes, unificados, quase sempre, em um só para cobrir as duas datas.
De olho nisso, eu, desde criança, aprendi com meu pai a separar as duas datas, para agradar Dona Nívia. Valia a pena. Perto do Natal, o aniversário de minha mãe mudou a família.
Até então, o Natal era para aquela gente perdida no Sertão da Alta Sorocabana uma data triste, marcada por uma tragédia familiar na noite do dia 24 de dezembro. Uma emboscada, um tiro, dias de agonia e a morte precoce de um filho mergulharam a família em um luto contínuo, que ficava mais rígido, doloroso e sombrio a cada mês de dezembro.
Eram dias de janelas fechadas, roupas escuras, espelhos cobertos, silêncio. Nem a vingança pela morte do filho querido aplacou a dor, que acabou aumentada pela morte sucessiva dos netos, um a um, com pouco tempo de vida. Ali, parecia que a vida não havia sido feita para florir.
Leia mais: O mundo gira e a Lusitana roda
A chegada de minha mãe àquela casa mudou isso.
Trazida para o casarão para ser criado pelos tios, poucos anos após seu nascimento, a menina morena e espevitada mexeu com o ritmo da casa, que foi, pouco a pouco, abrindo suas janelas, deixando o ar fresco da praça substituir o mofo, a penumbra e o silêncio.
Era vida nova, lançando os fantasmas e a dor para o campo da memória. De esquecido, o Natal virou a principal festa da família. Eram tempos novos, de criança em casa, tempo resgatado das cinzas.
Minha mãe faria 102 anos neste 17 de dezembro e essas histórias, das mortes trágicas à ressurreição da família, vão se perdendo nas dobras do tempo e no adeus de todos os seus personagens.
A menina que resgatou o Natal virou mulher, enfrentou a morte de perto três vezes, fez carreira, teve amigos, trocou festas, bailes e o luxo da família adotiva para casar com o filho de um ferroviário, teve filhos, seis netos.
Me ensinou a ler e a escrever na mesa da cozinha bem antes d’eu ir para a escola, para desespero dos professores. Para provocá-la, não a chamava de mãe; logo ela, que tanto gostava de ser mãe e avó. Para mim, era Dona Nívia. Ela dava risada com a provocação do filho.
E, toda vez que eu ia visitá-la, já adulto, ela me levava até o portão e, com a cabeça encostada em meu ombro, dizia: “meu filho querido”. Tem dias que eu ainda ouço a sua voz, mesmo 11 anos após a sua morte. A memória prega peças na gente.
Lembro da Dona Nívia todos os dias. Nunca com tristeza. Olhando os anos que se passaram, tive uma sorte danada de ser seu filho. Hoje, com certeza, vou lembrar dela. Em dobro.