
Em algum momento da pré-história, uma criatura não diferente de nós, com olhos sensíveis a frutas coloridas, um gosto por açúcar e álcool e um cérebro familiarizado com os efeitos psicotrópicos de certo caldo, moveu-se da inconsciente procura por frutas fermentadas, como faziam os macacos bêbados, para a produção e o consumo intencionais.
Essa é a “hipótese paleolítica” da descoberta do vinho, um dos estudos que tomaram conta da vida do arqueólogo biomolecular Patrick E. McGovern, do Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pennsylvania, na Filadélfia.
McGovern morreu em agosto deste ano e deixou inúmeras pesquisas que ajudam a decifrar a cozinha ancestral. A hipótese foi descrita em “Uncorking the Past”. Esses viventes da Idade da Pedra Lascada tomavam seu vinho há 2,5 milhões de anos.
Caldo primordial da sobrevivência
McGovern — verdadeiro Indiana Jones, caçador das bebidas ancestrais — desvendou aquele a quem chamou de Homo imbibens, mas para isso usou um contexto ainda maior, mostrando que o álcool ocorre na natureza desde as profundezas do espaço e esteve presente no caldo primordial que pode ter gerado a primeira vida.
A essa visão com gosto de metafísica somaram-se os conhecimentos da Antropologia: os primeiros hominídeos e chimpanzés tiveram forte incentivo para se empanturrar de frutas fermentadas e outras fontes ricas em açúcar, como o mel, aproveitando ao máximo frutos encontrados apenas em determinadas estações. Era uma solução excelente para sobreviver em um ambiente hostil e pobre de recursos, escreve McGovern.
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Beaujolais Nouveau da Idade da Pedra
Ao levar as uvas de plantas silvestres (Vitis vinifera ssp. sylvestris) das florestas do Cáucaso para sua caverna — há certo consenso entre estudiosos de que a primeira videira é nativa dessa região — o “milagre” teria se consumado.
Frutas maduras transportadas em recipientes de madeira ou odres primitivos de couro, violentamente sacudidas, liberavam substâncias naturais presentes nas cascas para o início da fermentação. Assim teria nascido um vinho de baixo teor alcoólico, disputado pelos homens das cavernas. Da observação à repetição, logo tentaram recriar a experiência.
Era uma espécie de Beaujolais Nouveau paleolítico: “engarrafado rapidinho”, vin de primeur, como os que hoje chegam da França ao mundo sempre na terceira quinta-feira de novembro.

“Estou sentindo notas de um mamute fofo!”
O americano Leo Cullum (1942–2010), assíduo cartunista da The New Yorker, celebrou com humor a experiência pré-histórica: desenhou degustadores dentro de uma caverna. Do alto de seu barbão descuidado, depois de experimentar a poção natural, um deles proclama como um connoisseur: “Estou sentindo notas de um mamute fofo!”

Patrick E. McGovern viajou o mundo atrás das mais remotas evidências da produção de vinho, cerveja e outros néctares alcoólicos, visitando sítios arqueológicos em cidadezinhas perdidas na imensidão chinesa ou escavados nas grandiosas montanhas iranianas.
Quando não estava em campo, mergulhava no sofisticado laboratório da Universidade da Pennsylvania, examinando potes e ânforas milenares que guardam resquícios microscópicos de antigas civilizações — pistas fundamentais para reconstruir a trajetória alimentar humana.
Numa cerâmica de 7 mil anos retirada das montanhas Zagros, no Irã, ele identificou, com técnicas modernas de DNA, o vinho de uvas mais antigo já encontrado numa cozinha neolítica. Em Jiahu, província de Henan, às margens do rio Amarelo, no norte da China, um vinho fermentado de várias frutas era preparado com sofisticação há cerca de 9 mil anos.
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Hoje, há empreendedores que correm atrás dessas descobertas para tentar reproduzi-las comercialmente. A Dogfish Head, cervejaria de Delaware, requisitou a assessoria do cientista para lançar a Midas Touch, cerveja inspirada nos resíduos encontrados numa tumba de 2.700 anos, na Turquia.
A mesma Dogfish Head já recriou até um “grog”, o Kvasir, baseado em traços de bebidas encontradas em sítios da Escandinávia datados de 1200 a.C. e do ano 200. Na mitologia nórdica, Kvasir é um deus criado da soma da saliva de todos os outros deuses. Assassinado por dois irmãos anões, teve seu sangue misturado com mel — origem do lendário “hidromel da poesia”.