
Enquanto o mundo tenta correr atrás do prejuízo climático, o Brasil parece decidido a dar ré. Ao invés de aproveitar a COP30 como um símbolo de virada, como um chamado à regeneração e à liderança global, o que vemos é um país em “modo turbo” rumo ao retrocesso.
Aprovada esta semana pelo Senado, a nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental desfigura uma das poucas defesas que ainda tínhamos contra projetos mal planejados, obras predatórias e interesses imediatistas.
Em vez de modernizar com responsabilidade, o texto aprovado escolhe a pressa cega e a flexibilização rasa. É, na prática, uma carta branca para destruir sem freio, sem debate e sem noção de futuro.
E tudo isso acontece enquanto o Brasil ainda posa de protagonista verde nos palcos internacionais. Existe algo de cruelmente irônico nisso. ESG, nesse contexto, virou uma sigla gasta porque não adianta ter discurso bonito se as decisões reais caminham na direção oposta.
O que está em jogo aqui não é só biodiversidade, floresta ou rios. É a inteligência estratégica de um país que insiste em ignorar seu maior ativo: a Natureza. Sim, com letra maiúscula!
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Aprovado por 54 votos a 13, o PL 2.159/2021 permite que empreendimentos de médio impacto obtenham licenças ambientais por meio de autodeclarações, sem análise técnica prévia. Cria também a Licença Ambiental Especial (LAE), que acelera projetos considerados prioritários, dispensando etapas cruciais de avaliação.
Especialistas alertam que isso pode afetar diretamente mais de 3.000 áreas protegidas, colocando em risco cerca de 18 milhões de hectares de floresta nativa — uma área maior que o estado do Ceará.
A ministra Marina Silva classificou a proposta como um “golpe de morte” no sistema de proteção ambiental brasileiro. Ela tem razão. Não se trata de aprimorar processos, mas de desmontar controles. É como apagar o painel de alertas de um avião em pleno voo, só para não ver que ele está caindo.
O timing é igualmente perverso. Justamente quando deveríamos mostrar ao mundo que aprendemos com os erros do passado, escolhemos repetir a velha receita: acelerar obras, sufocar a ciência, calar comunidades tradicionais e empurrar a conta para as próximas gerações.
Enquanto isso, o governo também insiste na exploração de petróleo na Foz do Amazonas, contrariando pareceres técnicos do próprio Ibama. A região abriga ecossistemas únicos e uma rica biodiversidade marinha ainda pouco estudada.
Mas, como de costume, a lógica imediatista e econômica fala mais alto. E aí nos resta a pergunta incômoda: de que adianta sediar uma conferência do clima se o próprio país (governo) ignora as recomendações que cobra dos outros?
Nos últimos três anos, o Brasil perdeu mais de 45 mil km² de vegetação nativa, segundo dados do MapBiomas — o equivalente a um campo de futebol a cada três minutos. Ao mesmo tempo, enfrentamos secas históricas em bacias importantes como a do São Francisco e do Tocantins. Negar a conexão entre degradação ambiental e crise hídrica é negar a própria realidade.
O Brasil poderia ser a grande liderança do século XXI em sustentabilidade. Temos recursos naturais em abundância, matriz energética limpa, capacidade de inovação e uma juventude cada vez mais consciente. Mas, por algum motivo, insistimos em fazer o oposto.
Não se trata de ser contra o desenvolvimento. Muito pelo contrário. O que está em jogo é que sem responsabilidade ambiental, não há desenvolvimento que se sustente. Não há água para irrigar, nem clima para produzir, nem mercado que respeite quem destrói.
O ESG em sua prática começa com coerência. Com coragem. E, acima de tudo, com humildade para reconhecer que não somos donos da natureza — somos parte dela.
O futuro não espera. Ou o Brasil escolhe liderar com inteligência, ou continuará tropeçando em si mesmo, enquanto o mundo segue adiante.