Os preços dos ovos de chocolate na Páscoa de 2025 podem assustar, mas têm explicação. Há cerca de dois anos, o valor do cacau dispara no mercado internacional, impulsionado por uma crise global que combina mudanças climáticas, safras ruins, pragas e alta demanda.
Segundo a revista Forbes, o preço do cacau permaneceu sem muitas mudanças por cerca de 20 anos. As toneladas do fruto eram vendidas de US$ 1,5 mil a US$ 3 mil até 2023, quando os valores passaram pela primeira vez dessa margem. No ano passado, quadruplicaram, superando os US$ 12 mil.
A confeiteira Danielle Trollezi (@danitrolezi), nesse mercado há mais de uma década, diz que além dos fatores ambientais e dos problemas nas plantações, o mundo do chocolate no passado já fazia previsões “apocalípticas” sobre uma possível escassez do fruto, causada pelo descompasso entre a oferta e demanda.

Obviamente, a quantidade de pessoas que gostam de comer chocolate supera por muito a das que produzem. O resultado disso são preços fora de órbita, especialmente na Páscoa.
“Vemos ovos de chocolate industrializados com qualidade questionável sendo vendidos a R$ 600 o quilo”, alerta a confeiteira.
A crise do cacau tem batido na porta das grandes indústrias e também na das cozinhas de pequenos produtores autônomos. Ela impacta toda a cadeia produtiva, mas as operações artesanais sofrem mais.
“As grandes marcas conseguem negociar preços melhores pelo volume de compras”, explica Danielle. Restam aos negócios locais usarem a criatividade para entrar nessa competição em condições menos desproporcionais.
Aposta nos recheios em alta
Gabriel Bitencourt fechou há poucas semanas sua confeitaria física, Abientô (@abientodoces), em São José dos Campos, mas isso não o impediu de planejar a Páscoa.
Para não frustrar os clientes com quantidades menores, estratégia adotada por grandes marcas para segurar os preços, há dois anos ele decidiu abrir mão do chocolate importado para usar o nacional em sua produção.
A mudança permite aproveitar ingredientes queridinhos como o pistache nos recheios, uma febre mundial. Comprar 1 kg da semente atualmente pode sair mais caro do que 1 kg de camarão, mas o investimento vale.
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Danielle considera o pistache tão certeiro quanto o biscoito belga Speculoos, que tem viralizado nas redes sociais e sido usado em incontáveis receitas. Ingredientes que aparecem nas trends têm agradado o público, que hoje valoriza comer o que o algoritmo sugere.
Além disso, ingredientes sem chocolate na composição são opções para driblar os custos inflacionados da produção.
“A estratégia é investir em recheios que não dependam dele, como brigadeiros, caramelos e pastas de oleaginosas”, explica a confeiteira.
Criatividade vende mais que marca?
Em seu catálogo, Gabriel aposta também em limão e amora, cheesecake de maracujá, no tradicional Ninho com creme de avelã e dá um toque de flor de sal ao caramelo, pensando nos paladares que desejam fugir dos sabores exageradamente doces.
O confeiteiro também usa a apresentação artística como trunfo para atrair os clientes. Há alguns anos, ele criou um “coco de Páscoa”: uma casca de chocolate com recheio de piña colada tão fiel que poderia muito bem ter caído de um coqueiro.

Para 2025, o estilo da decoração foi abstrato. “Pensei em cores que remetessem à tranquilidade, tons claros e pastéis.” O trabalho artístico inclui também pintar as cascas à mão.
O menu de Gabriel para a Páscoa traz versões mini e cascas recheadas que chegam a 360g. Os preços variam de R$ 16,90 a R$ 159 — valor com o qual, por exemplo, não se compra um ovo Ferrero Rocher.




Se os preços incomodam, a solução parece ser se acostumar com eles. Danielle afirma que a nova realidade do chocolate é essa: “Preços altos, até mesmo para produtos de baixa qualidade, como os ovos industrializados.”
A confeiteira compara a situação com a do leite condensado há alguns anos, quando a reação do público gerou uma resposta polêmica da indústria.
Marcas como Nestlé, Italac e Cremor lançaram misturas lácteas condensadas — produtos mais “econômicos” que enganam pela aparência de leite condensado, mas passam longe dele na composição e no sabor.
“O chocolate também nunca mais voltará a custar o que custava há um ou dois anos”, garante Danielle.
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