O mesmo militar que foi decisivo para tirar do papel o projeto do Bandeirante, avião que deu origem à Embraer, foi também uma das figuras responsáveis por plantar a semente do desenvolvimento científico e tecnológico na região Norte do Brasil.
O tentente-brigadeiro Paulo Victor da Silva (1921-2010), ex-diretor do CTA (Centro Técnico Aeroespacial) estava preocupado na década de 1970 que a maioria dos engenheiros formados no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), em São José dos Campos, permanecia no Sudeste.
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Natural de Belém, no Pará, ele instigou um grupo de alunos a trabalhar no Norte do país. Entre eles estava o então graduando em Engenharia Eletrônica Carlos Nobre, hoje consolidado como um dos principais pesquisadores da Amazônia.

Nobre foi, ainda na década de 1990, um dos primeiros cientistas a alertar sobre o risco da floresta atingir o ponto de não retorno, quando a capacidade da Amazônia se regenerar é perdida.
“É uma história da minha juventude. Ele [Paulo Victor da Silva] fez uma coisa belíssima. Fez com que nós [alunos] fôssemos para essas regiões em um avião da FAB (Força Aérea Brasileira) pilotados por dois colegas da nossa turma”, relembrou em entrevista ao podcast talkmais.
As viagens de Carlos Nobre à Amazônia
As excursões duraram cerca de 15 dias cada. O cientista contou que os alunos viajaram em 1971 ao Norte da Amazônia pela primeira vez, passando pelos estados do Pará e Amapá. “Fiquei apaixonado”, disse. No ano seguinte, foram até o Acre e Rondônia.
As memórias que Nobre tem daquela época guardam uma floresta quase intocada pelo garimpo ilegal e o desmatamento. “Era quase zero”, destacou ao lembrar do avião em que os alunos sobrevoavam a Amazônia poucos metros acima da copa das árvores.
“A gente via a beleza da floresta. Eu andei dentro da floresta. Foi ali que tomei a decisão da minha vida: quero trabalhar pela Amazônia”, lembrou.
Ao se formar no ITA, em 1975, Carlos Nobre foi para Manaus, no Amazonas, onde trabalhou no INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia).
Atuava como engenheiro, mas recalculou a própria rota ao receber um conselho do diretor do instituto, o professor Warwick Kerr (1922-2018): “Carlos, você tem que virar cientista”.
Depois disso, Nobre fez doutorado em Meteorologia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT na sigla em inglês), nos Estados Unidos, concluído em 1983.
“A partir do momento em que voltei do meu doutorado eu nunca parei. Toda a minha vida fiz pesquisas relacionadas à Amazônia”, pontuou o cientista, que também é uma das principais vozes do mundo no combate à crise climática.
Pesquisa
Atualmente, Nobre coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT) e propõe soluções para evitar o fim cada vez mais próximo da Floresta Amazônica em um projeto próprio chamado Amazônia 4.0.
Suas pesquisas abrangem aéreas como geociências e ciências ambientais, com ênfase em temas como climatologia, desastres naturais e ciência do sistema terrestre.