Afinal, quanto dá dois e dois?
Na matemática a resposta é exata, quatro, mas, na poesia, essa é uma questão em aberto…
Ferreira Gullar, por exemplo, é fiel à matemática. “Como dois e dois são quatro, sei que a vida vale a pena, embora o pão seja caro e a liberdade, pequena”, escreveu em “Dois e Dois: Quatro”, poema de 1966, em plena Ditadura Militar.

Caetano Veloso, por sua vez, soma diferente.
Em “Como Dois e Dois”, composto no exílio de Londres, nos anos 70, Caetano faz uma releitura do poema de Gullar, cita “1984”, de George Orwell, mas decreta outro resultado. “Meu amor, tudo em volta está deserto, tudo certo; tudo certo como dois e dois são cinco”, escreveu, num verso que fica ainda mais lindo na voz imortal de Gal Costa.
Diversos na soma, Gullar e Caetano apontam, nesses versos cruzados, uma só direção: a realidade plúmbea da ditadura.
Voltando ao tema central deste espaço, a política, eleição é igual à soma de dois e dois no universo poético: às vezes obedece a matemática e dá quatro; às vezes subverte a lógica. A eleição municipal em São José dos Campos este ano foi pendular: ora oscilou, e muito, para o lado da “matemágica” e deu cinco; ora oscilou para o lado da lógica e deu quatro. Nessa reta final do segundo turno é imperativo reconhecer: dois e dois são quatro. Traduzindo: na esteira do que dizem as pesquisas, se ouve nas ruas, nas feiras-livres, nas conversas com taxistas e motoristas de aplicativo, enfim, no cotidiano da cidade, Anderson Farias (PSD) está caminhando para ser eleito no domingo, dia 27, prefeito de São José dos Campos pelos próximos quatro anos.
Fez uma campanha errática, largou mal, cometeu bobagens, mas soube recalcular a rota, usar o peso da máquina pública, minar o adversário e está perto da vitória.
Do outro lado, Eduardo Cury (PL) vai lutar até o final para provar que ele e seu grupo político, com Emanuel Fernandes à frente, estavam certos ao confrontarem Anderson e seu “padrinho” político, Felício Ramuth, na manobra que desossou o PSDB na cidade e culminou com a renúncia de Felício do cargo de prefeito no início de 2022. Não existe outra alternativa. Cury esteve com a faca e o queijo nas mãos por duas vezes, mas não deu o xeque-mate.
Será, com certeza, uma disputa brigada até o final, coisa que há muito não se via em São José dos Campos. Isso é bom.
O que fica disso tudo
A “chapa-quente” da campanha não significou qualidade de debate e de propostas. Nisso, o embate entre “criadores” e “criaturas” foi pífio.
Mas o fato da decisão ter sido trazida a segundo turno pela primeira vez em 28 anos é sintomático: o eleitor precisou refletir bastante sobre quem será prefeito entre 2025 e 2028. Não foi no vapt-vupt. Em resumo, não haverá, vença quem vencer domingo, vitória de “lavada” ou derrota fragorosa. Haverá, sim, uma cidade dividida entre resultados diverso para uma mesma equação e um governo que vai assumir com a responsabilidade de não errar, sob pena de naufragar em pouco tempo.
Ao vencedor, as batatas, como disse Machado de Assis, em “Quincas Borba”. Certo? Tudo certo como dois e dois são…
Segue o baile…
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