Quando uma família espera por um bebê, todas as possibilidades passam pela cabeça: com quem esse novo ser humano vai se parecer, como será o seu temperamento e até mesmo qual time do coração ele vai torcer.
O esperado é uma vida repleta de saúde e realizações. Mas o que muitos não contam é que, antes mesmo de o lar ser preenchido por novos cheiros e gargalhadas, a tempestade também pode vir.
A cabeleireira Milena Traunmuller passou por uma perda gestacional em 2023 (Créditos: Arquivo pessoal)
Nesta terça-feira (15), é celebrado o Dia da Conscientização da Perda Gestacional e Neonatal, data que lembra dos bebês que se foram antes mesmo de chegarem ao mundo. A perda gestacional e neonatal é uma experiência profundamente dolorosa que marca as famílias.
Segundo a Fiocruz, no Brasil, há em média oito óbitos neonatais para cada 100.000 nascidos vivos e cerca de 28 mil óbitos fetais por ano. Mas, ainda assim, o luto gestacional e neonatal é uma dor que costuma ser invalidada pela sociedade.
Perda gestacional: é a perda espontânea da gravidez antes do nascimento, sendo mais comum antes da 20ª semana de gestação. As causas podem incluir problemas genéticos, problemas de saúde da mãe, ou complicações durante a gravidez.
Perda neonatal: é a morte de um recém-nascido dentro dos primeiros 28 dias de vida. Isso pode acontecer por várias causas, desde complicações no parto, problemas de saúde congênitos ou infecções.
Frente a essa situação, a cabeleireira Milena Traunmuller vem ressignificando esse trauma desde que perdeu sua primeira filha, há pouco mais de um ano. Na reta final da gravidez, já com 38 semanas de gestação, ela descobriu que a bebê estava sem batimentos cardíacos ao passar por um exame de rotina.
Viver o puerpério por si só, não é fácil. O período se inicia logo após o parto e dura aproximadamente seis semanas, no qual a mulher se recupera da gestação e, por vezes, pode vivenciar desafios emocionais ou, em alguns casos, desenvolver depressão pós-parto.
No caso de Milena, voltar para casa com o ninho vazio após uma cesárea foi ainda mais complicado. Desde então, falar sobre a filha nas redes sociais se tornou uma válvula de escape para conviver com as dores do luto: “A maternidade já nos modifica por completo, mas o luto faz ressignificar tudo”, conta.
“Por eu trabalhar com o público, principalmente com mulheres e ser da área da beleza, resolvi expor a situação para facilitar o meu dia a dia quando retornasse ao trabalho”, diz a cabeleireira. “A melhor maneira foi essa: me abrir e trazer esse assunto tão importante, que infelizmente afeta tantas mulheres. Com isso, abri um espaço para que outras mulheres contassem suas histórias. Tive uma troca genuína com elas, que me ajudou muito naquele momento.”
Amor eternizado
Milena relata que, no início, a ajuda psicológica com terapia não funcionou. Por isso, com 45 dias de recuperação do pós-parto, ela retornou ao trabalho e a praticar atividade física.
“Tentei me distrair o mais rápido possível, acabei me inserindo em rotinas, e foi libertador. Também não posso deixar de falar sobre a parte espiritual e religiosa, que até hoje é minha fonte de refúgio para os dias difíceis. O acolhimento que temos na parte espiritual é surreal.”
A perda da primeira filha uniu ainda mais o relacionamento com o marido: ‘foi algo extremo o que passamos e isso nos fortaleceu’ (Créditos: Arquivo pessoal)
Para ela, não é um problema se expressar e dar abertura a outras mães que passaram pelo mesmo:
“Contar sobre minha filha e o que vivemos juntas é motivo de muita emoção, principalmente quando tenho a oportunidade de mostrar a fotinho que tenho guardada dela. Cada pessoa lida de uma forma diferente; meu único conselho é: o luto não te define.
Não deixe que a dor tome conta e paralise sua vontade de continuar vivendo. Porque, na real, é isso: uma parte de nós também morre junto daquele que se foi, mas não deixe que a outra parte que restou seja tomada pela dor e sofrimento. Continue querendo viver, continue pelas pessoas que ainda estão aqui e tente ressignificar da melhor maneira possível”.
Com isso, outra maneira que ela encontrou para enfrentar o luto foi eternizar o amor pela filha na própria pele.
“No começo eu não tinha muita vontade, mas depois bateu uma necessidade de ‘carregar’ essa marca comigo para que as pessoas pudessem ver. Eu não tinha ideia de como fazer ou expressar aquilo, mas uma amiga que é tatuadora me presenteou com a melhor tatuagem que carrego no corpo.”
Junto de Andressa Niemes, nasceu o projeto de tattoo para mães de anjos, o “naLuz”, em homenagem à pequena Nalu.
“Eu morri do coração vendo aquilo tomar forma e saber que a minha história iria chegar até outras mães que passaram pelo mesmo, que aquilo iria ressignificar o momento para cada uma que passasse pelas mãos da Andressa.”
Tatuagem simboliza a perda gestacional (Créditos: Arquivo pessoal)
Após uma extensa bateria de exames para que pudessem descobrir a causa do óbito fetal, Milena decidiu que não gostaria de viver tão cedo uma nova gestação, por estar superando a perda.
O obstetra dela liberou uma gravidez a partir de seis meses do primeiro parto e, antes do que imaginava, o arco-íris coloriu a vida da família.
Milena está a espera de seu bebê arco-íris, Kaleo (Créditos: Arquivo pessoal)
O fenômeno físico é utilizado como uma metáfora para crianças que nascem após os pais terem perdido um filho, geralmente por aborto espontâneo, morte gestacional ou morte neonatal, simbolizando esperança e renovação.
“De início, deu um misto de sentimentos: medo, insegurança, desespero. Até porque a única coisa que pensei foi na perda e no medo de reviver tudo aquilo que eu ainda não tinha superado, ou talvez nunca supere, na verdade. Mas, após alguns dias, pensei que, da mesma forma que eu enfrentei meu luto de uma maneira mais amorosa e me acolhi, pensei sobre a vinda do bebê, que hoje é o Kaleo.
Tentei filtrar as coisas ruins que eu sentia, até porque dizem que tudo o que sentimos é passado para o bebê na barriga, e eu jamais queria que ele sentisse tamanha dor.
Hoje, na verdade, eu ainda vivo um misto de sentimentos: metade deles são medo e insegurança e a outra, amor, alegria e ansiedade para o nascimento. Tento administrar os sentimentos de luto que ainda vivo, porque, na real, parece uma montanha-russa. Hora estamos no topo, hora estamos lá embaixo. Vamos vivendo um dia de cada vez.
Gestar é algo surreal aos meus olhos. Chegamos aos nove meses e estamos na reta final. A ansiedade toma conta, mas acredito sempre que o melhor irá acontecer, que teremos um parto e um encontro maravilhoso!”, relata Milena.
Acolhimento e comprensão
A coordenadora do curso de Psicologia Mirthis Czubka De Abreu, da Faculdade Anhanguera, explica que promover diálogos na sociedade para reduzir os tabus que cercam o tema ajuda no acolhimento e compreensão para as pessoas que passam por essa experiência.
“A perda gestacional, embora seja uma experiência devastadora para muitas famílias, ainda é um tema cercado de silêncio e estigmas”, explica a coordenadora. Este processo doloroso, que pode ocorrer em diferentes estágios da gravidez, afeta muitas famílias que por vezes enfrentam essa dor de forma isolada”.
Ainda de acordo com Mirthis, é importante não invalidar os sentimentos da mãe que perde um bebê, através de falas como “logo você vai ter outro”. Ela ainda reforça a importância de considerar tanto o aspecto emocional quanto o físico antes de uma nova gestação.
“Mulheres que tiveram perdas em gestações anteriores podem se sentir mais vulnerável ou fragilizada diante de uma nova gravidez. Então, um acompanhamento psicológico poderá auxiliar no fortalecimento emocional dessa mulher, uma vez que ela poderá sentir medo, ansiedade, insegurança e ter a autoestima comprometida diante de uma nova gravidez, fazendo-a inclusive se questionar quanto à sua capacidade reprodutiva e materna”, finaliza.
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