É fácil manter uma longa conversa sobre quantas coisas combinam com cerveja. Não apenas comidas, tipo amendoim e torresmo. Há recortes mais específicos, situações como um dia de calor na praia, um jogo de futebol no estádio, um almoço de família. Nesta lista, também se deve colocar a amizade entre Gabriel Lima e Matheus André, dois jovens empreendedores de Paraibuna que se conhecem desde criança.
“A gente gosta de tomar muita breja”, Gabriel confessa. Essa paixão levou os dois a se despedirem da vida com carteira assinada há poucos meses. O maior desafio foi deixar a comodidade do salário sempre pingando. “Você tá ali numa empresa, uma CLT, trabalhando todo dia e todo final do mês ganhando seu salário. Um desafio gigantesco foi ter que abrir mão de tudo isso, de benefícios”.
Gabriel ganhava o pão em uma clínica de ultrassom e Matheus em uma empresa de contabilidade. Até que bolaram a ideia de vender cerveja numa Kombi, um sonho que veio de planos pré-pandêmicos – e como os de muitas outras pessoas, adiados a partir de março de 2020.

“Eu comecei com um projeto para abrir uma adega. Nesse meio tempo, ele [Matheus] estava com um plano de abrir um bar. Aí veio a pandemia e cortou os nossos sonhos. Então depois começamos a pensar em alguma coisa juntos. Ficamos matutando, tivemos uma ideia de abrir uma carvoaria, acabou não dando certo. E aí tivemos a ideia, ‘pô, por que não abrir um beer truck de chope artesanal?’, e foi aí que o sonho começou a caminhar”, conta Gabriel.
No fim do ano passado eles se juntaram a Pedro Pereira, com quem Gabriel iria tocar há alguns anos o plano da adega. Tudo começou pela compra da Kombi em dezembro. Encontraram uma 1989 à venda em Mogi Mirim, há quase três horas de Paraibuna. Matheus e Gabriel, com juízo menor ainda do que o conhecimento sobre Kombis, foram de moto fazer o resgate. Voltaram com ela dentro da perua. “A gente não sabia dirigir Kombi. Viemos ali na adrenalina à noite”.
Em seis meses os bancos de passageiros deram espaço à Joca Beer, uma cervejaria que trabalha por horas sem energia – só precisa da gasolina para as viagens. Barris de chope, balança, espaço para o gelo. Também tiveram que fazer ciência e entender a mecânica dos cilindros de CO2, que mantém o gás carbônico pressurizado e ajudam a levar a cerveja dos barris para as torneiras na janela. Foi como montar um apartamento planejado sem arquiteto.
Criar toda a infraestrutura sobre rodas não foi simples, mas hoje os amigos entenderam a santidade por trás do veículo, que teve o primeiro modelo brasileiro produzido pela Volkswagen em 1957. É um marco, um ícone automotivo e fashion que mexe com o coração das pessoas. “Você acaba se tornando parte de uma família. Só quem tem sabe falar. Não é um carro antigo passando. Tem um valor sentimental. Por isso que isso aqui não tem oferta que pague. Ninguém vai conseguir aguentar”, ri Matheus.
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A rotina da Joca Beer
A semana da Joca Beer começa na segunda-feira, depois do balanço da que passou. O trio coloca em pauta os eventos que terá (corporativos, casamentos, aniversários, feirinhas de condomínio) e, quando livre, para onde deve dirigir para encontrar o povo. Ultimamente o principal destino tem sido a praça Ulisses Guimarães, no Jardim Aquarius, em São José dos Campos.
A fama entre os moradores do bairro só cresce. Definem como “a galera que gosta de correr e tomar chope depois”. Os horários escolhidos também são ideais para descer uma gelada. Os amigos geralmente aparecem na praça às 18h nas sexta-feiras (no mais desejado pós-expediente da semana) e aos sábados por volta das 14h, “quando o clima tá gostoso, o sol tá batendo e a galera quer tomar um chope”.
Das cervejas, a Session IPA é a que tem feito mais sucesso. Ela é a favorita também dos próprios donos da Joca, “Refrescante, cítrica e bem leve”, descreve Matheus. A cerveja não é produção própria, mas é local. Os amigos queriam que os rótulos todos viessem da região.

“Cerveja é muito delicado. Fizemos uma busca, e como a gente é do Vale do Paraíba, queríamos pegar uma cerveja daqui para iniciar. Pequisamos pelas cervejarias da região e selecionamos a Complô, que é uma cervejaria com um chope de qualidade”, explica Gabriel.
A Complô tem produção em Jambeiro e seduziu o trio pela variedade do catálogo. São 14 rótulos feitos em uma fábrica que utiliza energia solar e fica no mesmo espaço de um charmoso beergarden (um bar a céu aberto).
“A gente encontra Pilsen, Session IPA, West Coast IPA, as filtradas, as Stalts [cervejas escuras]. Conseguimos levar para os clientes sempre um cardápio rotativo”.
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