Uma pesquisa divulgada pelo canal WDR, pertencente ao conglomerado de emissoras de radiodifusão públicas da Alemanha, chamado de ARD, acabou criando uma grande polêmica na seleção alemã de futebol às vésperas da disputa da Eurocopa 2024, que terá início daqui a dez dias, no dia 14 de junho.
A pesquisa – feita entre os dias 2 e 3 de abril de 2024 e na qual foram entrevistadas 1.304 pessoas – mostrou que um quinto desse total, cerca de 21% dos entrevistados, “desejaria que a seleção alemã tivesse mais jogadores brancos”.
Do total, 17% acham uma “pena” que o capitão da Nationalelf seja Ilkay Gundogan, meio-campista do Barcelona e jogador de ascendência turca. Entretanto, 66% do total, ou seja, a maioria, “acham bom que a seleção tenha muito jogadores de origem imigrante”.
Fato é que a tal pesquisa foi divulgada no último sábado (1°), há três dias, e nesse meio-tempo foi responsável por criar um mal-estar no elenco alemão. O técnico Julian Nagelsmann, por exemplo, disse em coletiva de imprensa pré-amistoso contra a Ucrânia (que terminou em 0 x 0, na última segunda) que “espera nunca mais ver uma pesquisa de merda como essa”.

Joshua Kimmich, jogador do Bayern de Munique e um dos líderes do atual elenco da Alemanha, foi na mesma linha ao afirmar que essa foi uma pesquisa “absolutamente racista” e que ela “não tem lugar em nosso vestiário”. E continuou: “Quando você pensa que agora estamos próximos de ter uma Eurocopa em casa, é absurdo fazer uma pergunta dessas quando o que importa é a união de todo o país”.
“É absolutamente contraproducente e não tem cabimento algum. Trata-se de realizar grandes coisas juntos. Como equipe, estamos fazendo tudo o que podemos e tentando fazer com que todos na Alemanha nos apoiem”, completou o jogador.
Para que entendamos melhor a polêmica, é preciso levar em conta que a enquete foi extraída de um documentário, que estreou na última segunda, do próprio canal ARD, chamado “Einigkeit, Recht und Vielfalt” (“União, Justiça e Diversidade”, na tradução literal para o português), que foca em mostrar como era a sociedade alemã em 2006, ano em que o país sediou a Copa do Mundo, e compara com a Alemanha de agora, em 2024.
Ou seja, discorrendo do que mudou nesses últimos 20 anos e que papel uma equipe diversificada pode desempenhar num país que possui aproximadamente 14 milhões de pessoas registradas oficialmente como imigrantes, segundo dados de março deste ano do Ministério de Migração e Integração da Alemanha.

O documentário, inclusive, faz uma viagem no tempo para descrever o caminho percorrido pela seleção nacional para se tornar uma unidade diversificada. Para isso, usando de entrevistas com jogadores atuais, caso do zagueiro Jonathan Tan, do Bayer Leverkusen, e ex-jogadores, como o antigo atacante Gerald Asamoah (natural de Gana e primeiro jogador nascido na África a ter vestido a camisa da Alemanha). Tudo isso, mostrando o contexto social do país na época, e debatendo tópicos como integração, racismo e identificação.
O cineasta e jornalista Philipp Awounou, que dirigiu o documentário “polêmico”, acabou participando na noite da última segunda-feira de um programa da própria emissora ARD, o ARD Talk, para dar a sua versão sobre a produção.
Veja mais: Melhor jogador de xadrez do mundo é contratado por famoso time ‘alternativo’ alemão
“O pano de fundo dessa pesquisa foi que nos deparamos com declarações com conotações racistas sobre a equipe nacional durante a pesquisa para este filme. Algumas declarações, como as que já ouvimos. ‘Onde estão os alemães de pele clara? Eles também podem jogar futebol’, ‘Um africano não pode ser alemão’, ‘Essa não é uma equipe nacional alemã de verdade'”, disse.
“Nós nos deparamos com essas declarações tanto on-line quanto na vida real e a pergunta era: como lidar com elas? Como apresentá-las? E, acima de tudo, como ponderar isso? E acho que essa é uma pergunta legítima para começar”, continuou.
“E é claro que você pode dizer: olhe para a esquerda, olhe para a direita, olhe para pesquisas e números de pesquisas. E então fica claro que isso será socialmente aceitável em 2024. A questão era até que ponto essas declarações representam uma parte relevante da população ou não. Era isso o que eu queria verificar”, disse Awounou.

O diretor do documentário ainda comentou a declaração de Julian Nagelsmann sobre a pesquisa criada e admitiu o direito de Nagelsmann de ter a opinião que ele quisesse. “Ele nunca mais precisaria ler sobre ela”, afirmou. Awounou também disse que a pesquisa foi retirada do contexto. Ele avalia que ela deveria ter sido feita forma diferente desde o início.
Fato é que a Alemanha terá nesta sexta (7), contra a Grécia, no Estádio Borussia Park, em Mönchengladbach, a partir das 15h45 (de Brasília), o seu último amistoso preparatório para o pontapé inicial da Eurocopa.
A estreia no torneio será contra a Escócia, no dia 14 de junho, na Allianz Arena, em Munique, em jogo que abre o grupo A (que também conta com Suíça e Hungria).
Você pode se interessar: Após título inédito, cidade de Leverkusen quer tornar Xabi Alonso nome de rua
Acompanhe também: