Agora em maio faz 8 anos do lançamento da obra derradeira de Umberto Eco, publicada meses após sua morte.
Nela, o escritor e filósofo italiano tenta explicar o que a muitos é inexplicável: o mundo e a sociedade em que vivemos. Em resumo, a confusão do nosso tempo. O nome do livro já aponta para o inexplicável: ”Pape Satan Aleppe”, lançado com o subtítulo “Crónicas de Uma Sociedade Líquida”, remete a um verso enigmático da “Divina Comédia”, de Dante Alighieri, dito no Canto 7, durante estada de Dante no inferno. O que a expressão significa? Dante não dá pistas. Ao usá-la em sua última obra, Eco, por sua vez, dá sinais claros de sua intenção: vivemos hoje em uma realidade onde explicação e sentido é o que menos importa.
Mas o que Eco, Dante e o Inferno têm a ver com esse espaço, dedicado à política? Em tempos de política 5.0, praticada na velocidade das redes, tudo.

Tornamo-nos cada vez mais rasos, falamos sem refletir, condenamos sem nos preocupar com direitos, respeito, valores, como aponta a professora Luciana Grassano Gouvêa Melo, da Universidade Federal de Pernambuco, em artigo sobre esse mesmo tema, no “Diário de Pernambuco”. “Ficamos repetindo a bobagem dos outros, até que aquela bobagem se transforma em verdade.” Dias atrás, a bobagem da vez foi um comentário feito pelo prefeito Anderson Farias (PSD) durante uma “live”. Interrompido pelo miado de um dos gatos que tem em casa, Anderson disse, em tom de chiste: chuta o gato. Foi o que bastou para deflagrar um debate acalorado sobre maus-tratos a animais, insuflado, em parte, pela própria “tropa digital” de Anderson.
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A bobagem surgiu e sumiu num vapt-vupt. Dela não restou nem miado, mas, com certeza, outras virão até as eleições municipais de outubro.
No “engatinhar” das redes, Umberto Eco disse que, antes, os imbecis falavam só para os amigos do bar, mas, hoje, têm acesso a uma audiência mastodôntica no mundo digital. Exagero? A frase original de Eco soa arrogante, mas creio que ela carrega certa razão. Quando morreu em 2016, aos 84 anos, o escritor ganhou milhares de obituários em todo mundo. Um deles, veiculado pelo UOL e ilustrado com uma foto de Eco com a tradicional barba cerrada, recebeu um comentário carregado de miopia ideológica: “Um petralha a menos na terra.” Eco tinha razão.
Segue o baile …
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