Todos vimos as notícias sobre o ataque de sexta-feira, onde quatro atiradores deixaram mais de 100 mortos e outros tantos feridos em uma casa de shows em Moscou.
O grupo terrorista ISIS reivindicou responsabilidade pelo atentado, chegando inclusive a postar nas redes sociais uma foto dos supostos perpetrantes.
E, apesar de já duas semanas atrás terem os EUA avisado do risco de um atentado em Moscou, o Kremlin, previsivelmente, colocou a culpa pelo ataque nos ucranianos, prometendo retaliar com energia contra os responsáveis.
A pergunta que muita gente tem agora é: Quais serão as ramificações imediatas do ataque?
Qual o impacto do ataque na invasão russa da Ucrânia? Vejamos algumas considerações.

As acusações do Kremlin
Inicialmente, os atiradores escaparam do local do atentado. No dia seguinte, as forças de segurança russas declararam ter capturado os suspeitos, forçando confissões e, inclusive, mutilando um deles com a típica brutalidade russa que o mundo vem testemunhando nos últimos anos.
Quer sejam estes os verdadeiros perpetrantes ou não, o fato é que o governo russo não perdeu muito tempo em acusar a Ucrânia pelo atentado.
A narrativa seguiu as costumeiras linhas: primeiro um diplomata russo postando indiretas no Twitter, a seguir as discussões no canal de televisão russo Rossiya 1 e, finalmente, a declaração de Putin, vindo já tarde no sábado e alegando que a Ucrânia teria preparado uma “janela” para o escape dos terroristas para território ucraniano.
Hipótese: “bandeira falsa” para escalar a guerra?
Muitos se apressaram em declarar que a operação foi uma false flag, uma “operação de bandeira falsa” criada pelos serviços secretos russos a fim de justificar uma escalada das hostilidades na Ucrânia ou até mesmo desencadear uma mobilização do povo russo em massa.
Por um lado, esta hipótese não é tão bizarra quanto parece à primeira vista. Não seria a primeira vez que a Rússia se vale de um atentado terrorista para justificar hostilidades — o exemplo imediato que nos vem à mente é a crise dos reféns do teatro de Dubrovka, onde as forças russas agiram com precipitação e causaram a morte de mais de 200 reféns, episódio que a seguir foi usado para intensificar a destruidora Segunda Guerra na Chechênia.
Mas, assim mesmo, é difícil ver como a Rússia poderia intensificar a guerra.
Uma intensificação da guerra é improvável
O Kremlin já se encontra numa tentativa de invasão total da Ucrânia onde sofreu centenas de milhares de baixas e gastos de centenas de bilhões de dólares. A economia russa já está em pé de guerra. A Ucrânia já sofre com ondas de ataques aéreos — sendo que o maior ataque contra a infraestrutura do país foi registrado justamente na manhã de sexta-feira, antes do atentado em Moscou.
Mobilização geral? Putin já deu sobejos indícios de que não quer se arriscar. Vale lembrar que foi assim que o Império Czarista terminou — com a mobilização da população para a Primeira Guerra Mundial, que a seguir se voltou contra o governo na Revolução de 1917.
Como disse o próprio Putin em 2002, “Melhor não exaltar os ânimos do povo”.
Bombas nucleares? Além de ser uma escalada totalmente desproporcional e que não se encaixa na doutrina russa de uso nuclear, é uma jogada que não traria ganhos políticos e arriscaria uma reação vigorosa e imprevisível do Ocidente. Os americanos já indicaram, por exemplo, que o uso de uma bomba nuclear da parte do Kremlin provocaria, como retaliação, a destruição da armada russa no Mar Negro com o uso de armamentos convencionais — uma reação que seria desastrosa para a Rússia e que está inteiramente dentro das capacidades bélicas da OTAN.
Finalmente, é óbvio que a Rússia não precisaria organizar um ataque terrorista como pretexto para seja o que for. Putin não requer pretextos para suas guerras. E, se precisasse, já houve inúmeros outros potenciais motivos para uma “escalada”. A Ucrânia vem visando, por exemplo, refinarias russas com seus drones, causando graves danos econômicos. No passado, ocorreram ataques em Belgorod, cidade russa na fronteira com a Ucrânia, que poderiam ter servido para o mesmo fim. Na Crimeia, que os russos ocupam desde 2014 e tratam como território russo, alvos foram visados inúmeras vezes, incluindo os ataques maciços registrados nesta madrugada, em Sevastopol. E por aí vai.
Então, o que muda?
Fazer previsões com muita confiança é o melhor jeito de passar vergonha. Mas, se eu fosse apostar, eu diria que o balanço de probabilidades aqui indica que o ataque terrorista não deve alterar substancialmente o cálculo de Putin e o curso da guerra na Ucrânia.
Tampouco me parece que o evento indique uma ressurgência do suposto “Estado Islâmico” (que de islâmico, diga-se de passagem, pouco tem). Apesar de ter sido esmagado na Síria e no Iraque, o grupo tem inúmeras subdivisões e há anos considera a Rússia como seu inimigo, em parte pelas interferências russas em países como o Afeganistão, Síria e na própria Chechênia. Ataques isolados continuam acontecendo, como o recente atentado no Irã.
Ou seja, este ataque é simplesmente mais um “fato da vida”, uma consequência do perfil imperial russo e suas interferências no Oriente Médio e em outras regiões.
O que podemos dizer é que, sem dúvida alguma, o evento foi vexaminoso para as autoridades russas. Primeiro eles desconsideraram o aviso americano, que Putin publicamente chamou de “chantagem” para minar sua autoridade antes das eleições.
Depois, as forças especiais moscovitas levaram mais de uma hora para chegar ao local; os terroristas escaparam, ao menos inicialmente. Após o incidente, Putin demorou para dar as caras e seu pronunciamento foi fraco.
A imagem toda é de muita incompetência. Apesar de projetar a imagem de líder forte que protege o povo russo de inimigos estrangeiros e de anarquia interna, Putin, com suas guerras, acaba por ser responsável pela morte de mais russos do que qualquer outra pessoa em tempos recentes. E o atentado terrorista é só mais um episódio na longa lista de “Putin não nos traz segurança”.
O que os russos farão a seguir? Possivelmente, nada. Podem abafar o incidente, talvez declarar que capturaram mais alguns responsáveis, e torcer para o episódio ser esquecido pelo povo russo. Isso tudo ao mesmo tempo em que continuam com seus ataques terroristas em solo ucraniano e torcem para o Ocidente se cansar de apoiar a Ucrânia.
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