Logo após as 8h da manhã deste sábado, ouvimos explosões em Kyiv. Era um ataque de mísseis russos — o primeiro após um longo intervalo de quase dois meses.
O ataque falhou. As explosões eram apenas tiros da defesa aérea (possivelmente o sistema americano Patriot), derrubando os mísseis balísticos russos. Aliás, a chegada dos Patriots, em março deste ano, foi um momento crítico na defesa da capital ucraniana, que durante todo o inverno passado sofreu com constantes ondas de mísseis visando a infraestrutura elétrica.
Agora que mais um inverno se aproxima, o provável é que os russos redobrem os ataques à capital. A população de Kyiv já conta com isso, e vem se preparando para a possibilidade de novos apagões — adquirindo lanternas e lampiões à pilha, power banks e pequenas reservas de alimentos e água.
Em restaurantes ou supermercados no centro da cidade, não é raro ver um gerador à diesel perto da entrada. Já no ano passado os geradores se tornaram uma das comodidades mais populares aqui, e a demanda continua alta.

(Fonte: NBC News)
Como é defendida a capital ucraniana?
É importante estar preparado. Um ano atrás, mísseis russos disparados da Bielorrússia, do Mar Negro e até do Mar Cáspio (!) atingiam com impunidade as ruas da capital ucraniana. De setembro a dezembro de 2022, a Rússia visou a infraestrutura elétrica ucraniana com mais de 1000 mísseis. Os estragos foram enormes, ainda que os ucranianos tenham tido mais sucesso do que se esperava na defesa aérea.
Mas este ano, graças ao apoio de países da OTAN, a Ucrânia conta com uma defesa aérea sofisticada de curto, médio e longo alcance.
Curto alcance
Para derrubar drones iranianos do tipo “Shahed”, com seus 400 kg de explosivos, a Ucrânia conta com o blindado alemão Gepard, um sistema da década de ’70, mas que nem por isso perdeu sua relevância, e vem equipado com radar e sistema eletrônico da última década. A Ucrânia recebeu mais de 80 Gepards este ano, e também conta com 12 lançadores norte-americanos Avenger, com mira laser e infravermelha, enviados em maio.
Estes sistemas móveis também são capazes de derrubar mísseis balísticos, mas têm alcance limitado, de menos de 20 km.
Médio alcance
Para derrubar mísseis balísticos ou de cruzeiro, a Ucrânia tem baterias NASAMS II — tecnologia norueguesa com alcance de 30 km. Pelo menos dois sistemas foram doados pelos EUA, enquanto que a Lituânia comprou mais dois este ano especialmente para enviar à Ucrânia.
Outra aquisição valiosa: dois IRIS-T alemães, de 40 km de alcance, que podem ser usados pelos caças ucranianos ou disparados de uma base terrestre. A tecnologia é recente, e poucos países os haviam adquirido antes da guerra na Ucrânia; agora, já estão sendo fabricados a ritmo acelerado, com demanda por toda a Europa. Oito mais foram prometidos para a defesa das cidades ucranianas.
Mais ainda, temos um presente especial da Espanha: sistemas superfície-ar Hawk, que, apesar de terem sido descontinuados nos EUA, têm desempenhado um papel importante aqui.
Longo alcance
Finalmente, temos também sistemas de longo alcance. Primeiro, as baterias americanas Patriot, com impressionantes 160 km de alcance, embora na prática o alcance contra mísseis balísticos seja bem menor. É uma tecnologia da Guerra Fria, dos anos ’80, mas que este ano se mostrou eficaz mesmo contra os Kinjal, os mísseis hipersônicos mais modernos da Rússia e que desde 2018 eram alardeados como “invencíveis”
Por último, o sistema franco-italiano SAMP/T, sistema de ponta cujo excepcional radar permite monitorar até 100 alvos aéreos de uma vez e transmitir comandos de direção para até 16 dos seus mísseis ao mesmo tempo.
O que vem aí?
A Ucrânia é um país enorme, o maior da Europa. Ainda não é possível montar uma defesa impenetrável de todo o céu ucraniano. Quase com certeza, serão bem-sucedidos muitos ataques russos à infraestrutura (o que, aliás, é um dos muitos crimes de guerra cometidos pela Rússia).
Mas, seja como for, a capacidade de defesa este ano é outra. E a capital, Kyiv, símbolo da resistência ucraniana, está pronta para o que der e vier.
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