São 6.400 metros quadrados distribuídos em oito andares que abrigam centenas de funcionários de cara para a ponte estaiada, o principal cartão-postal de São José dos Campos. Esse é o tamanho da operação da engenharia da Boeing, a gigante norte-americana da aviação, que chega oficialmente à capital nacional do avião.
Nesta terça-feira (10), a companhia inaugurou e apresentou para a imprensa as instalações do seu novo Centro de Engenharia e Tecnologia, no Colinas Green Tower, que provavelmente é o mais moderno edifício comercial da cidade.
A cerimônia foi extensa. Contou com evento em auditório cheio de executivos, políticos e autoridades, passou por duas refeições (café da manhã e almoço) e incluiu um tour por um dos escritórios, marcado por sigilo sobre informações internas e trabalhadores.

A Boeing já tinha vida em São José dos Campos desde 2014, quando instalou seu primeiro endereço para desenvolvimento e pesquisas na cidade natal da concorrente Embraer e do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).
A investida agora, porém, marca um outro momento. O foco da nova sede brasileira será desenvolver projetos para a aviação comercial e expandir o ecossistema do segmento, fortalecendo também a criação de talentos na área da engenharia, o que há de sobra no Vale do Paraíba.
Uma outra prioridade será desenvolver a produção de combustíveis sustentáveis para aviação. As empresas do setor estão compromissadas a descarbonizar todas as suas operações até 2050, dentro do prazo proposto pelo Acordo de Paris.
O evento de terça, alinhado às práticas ESG, já foi livre de emissões de carbono, segundo anunciou o gerente de comunicação da Boeing, Nicolás Morell, pouco antes de chamar políticos e os altos quadros da companhia no Brasil e no exterior para o tradicional corte de fita que simbolizou a inauguração do espaço.
Brendan Nelson, presidente da Boeing Internacional, era o principal nome entre os superiores da empresa que seguravam tesouras para concretizar a conquista. Simpático e dono de um inglês tipicamente australiano, ele brincou com a dificuldade de “traduzirem” suas falas por conta do sotaque e destacou a criatividade dos brasileiros em seu discurso.
Posição no Brasil é estratégica
Depois de um café da manhã de boas-vindas, um grupo de cerca de 20 profissionais da imprensa (a maioria vinda de São Paulo) participou da primeira coletiva de imprensa da Boeing em seu novo endereço.
A sessão de perguntas e respostas durou por volta de 20 minutos e reuniu em uma mesa jornalistas e dois executivos da empresa, que ficaram separados por uma distância pouco maior do que a entre poltronas da classe econômica de um 777.
Em ótimo português, Landom Loomis, presidente da Boeing na América Latina e Caribe, e Humberto Pereira, o diretor geral do novo centro de engenharia, responderam questionamentos dos jornalistas sobre a estratégia de estabelecer o novo polo no Brasil. Toda a atuação aqui será coordenada junto à matriz da fábrica nos Estados Unidos.
De acordo com os executivos, a companhia pensa de forma globalizada e a longo prazo para atender uma demanda mundial por aviões que deve movimentar US$ 8 trilhões no mercado ao longo dos próximos 20 anos.

O Brasil é o sexto país ou região global a receber um centro de pesquisas avançadas da Boeing fora dos Estados Unidos. A lista inclui a Europa, Austrália, China, Índia e a Rússia. Ao todo são 15 escritórios do tipo ao redor do mundo.
“A decisão de abrir o centro aqui veio depois da pandemia, quando a frota global [de aeronaves] estava toda no chão. Nesse momento de estresse extremo, criamos uma análise sobre onde teriamos que ter presença quando a demanda voltasse”, explicou Landom na coletiva.
O diretor-executivo destacou que a escolha por São José foi baseada na identidade aviadora do município. Ele colocou a cidade sob o mesmo teto de locais históricos para a Boeing, como a Carolina do Sul e Seattle, onde a companhia foi fundada, em 1916.
Portas abertas, mas sigilo sobre informações e funcionários
Dois dos oito andares da Boeing no prédio já estão em atividade e a expectativa é de que os outros seis sejam liberados nas próximas semanas. A imprensa presente na inauguração foi convidada para conhecer o escritório que ocupa todos os 800 metros quadrados do 13° andar.
Por questões de organização, os profissionais foram divididos em dois grupos. A visita foi guiada por Nicolás Morell e Guilherme Noro, Conselheiro Internacional de Segurança da Boeing. Outras três funcionárias da companhia também mantiveram os olhos sobre o pelotão durante todo o tour.
Saindo do elevador no 13°, você recebe as boas vindas de um grande logo da Boeing fixado na parede. As portas do escritório ficam à esquerda e o minimalismo do ambiente impressiona logo na entrada.
Antes de botarmos os pés pela primeira vez no que oficialmente era parte da nova sede da Boeing em São José, porém, fomos alertados por Noro a manter cuidado máximo em tudo o que fizéssemos lá dentro:
- Funcionários do escritório só poderiam ser gravados ou fotografados caso autorizassem (e ainda assim, deveriam ser registrados de costas);
- Entrevistas com os funcionários também estavam liberadas apenas se autorizassem individualmente;
- Os trabalhadores foram aconselhados a não realizarem suas atividades enquanto a imprensa estivesse lá, além de terem sido instruídos a não utilizarem crachá de identificação durante a visita;
- Todos os computadores no andar ou estavam desligados ou haviam sido colocados no modo de repouso, exibindo apenas os fundos de tela.

Tour pelo 13° andar
O tour foi feito no horário de almoço, por isso eram poucos os profissionais trabalhando no escritório. Apesar disso, a sensação de que muito do que era discutido e produzido era sigiloso – e de fato é. A aproximação dos jornalistas até afastou alguns dos funcionários, que saíram de suas posições e despistaram o grupo entre os vários setores que dividem o espaço como um enorme Batalha Naval (A1, C2, D4…).
A sensação por todo o escritório é de paz e limpeza. Ainda que a visita tenha sido enquanto boa parte do time estivesse fora e o espaço seja recém-inaugurado, a impressão é de que mesmo com toda a sua capacidade de pessoal a vida naquele escritório seja discreta. Talvez um tanto burocrática, mas leve.
As cores da maioria dos móveis e paredes são sóbrias e o branco predomina ao lado de vários tons de cinza, que são quebrados por alguns detalhes em madeira. O ambiente acolhe mesmo pelos detalhes, como as fotos de aeronaves em solo e no ar, painéis de aviões e pistas de pouso e decolagem. (Veja mais detalhes do espaço em vídeo do Portal SP RIO+)

Cheio de divisões, o escritório conta com espaços para que os funcionários tenham privacidade nas ligações telefônicas e mães possam amamentar seus filhos, além de salas específicas para descanso, conferências e reuniões.
Todas elas recebem códigos para identificação, mas pela dificuldade em memorizar números e letras, a Boeing facilitou: deu nomes de capitais brasileiras. Um dos espaços separados para apresentações se chama “Vitória”, enquanto uma das salas de reunião recebeu o nome de “Teresina”. Nicolás contou ainda que há uma sala que leva o nome do pai da aviação, Santos Dumont.
Grande oportunidade para estudantes de engenharia
A Boeing anunciou no evento que a partir de 2024 vai oferecer primeiro programa de estágio da empresa no Brasil, voltado para estudantes do último ano de engenharia.
Os estagiários aplicarão conhecimentos por meio de projetos em um ambiente global e multicultural, com orientação de profissionais experientes. A iniciativa está alinhada com a estratégia global da empresa de contribuir para a excelência em engenharia nos países onde atua.
“Queremos oferecer o melhor programa de estágio do Brasil para estudantes que desejem construir uma carreira sólida e de destaque na indústria aeroespacial. O Brasil tem um rico histórico na aviação, contando com universidades que são referência no setor de engenharia”, disse Humberto Pereira, diretor do Centro de Engenharia e Tecnologia.
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