Sua inspiração, Ayrton Senna. Como origem, a quebrada. O sonho, chegar às 24 horas de Le Mans.
O automobilismo é correria na maior parte do tempo, mas as corridas em qualquer modalidade começam nas pequenas pausas do grid de largada, o momento preferido do jovem piloto Vinicius Brito (24), um joseense de coração.

Vindo de Itaquera para o Vale do Paraíba para ficar mais próximo da namorada, Haynna, é São José que ele representa hoje nas pistas.
A sua estreia no automobilismo é recente. Começou a correr em 2021 na Fórmula Vee Open, uma categoria exclusiva para iniciantes.
Na primeira corrida, acumulava horas apenas atrás dos volantes do video-game. A inexperiência no asfalto, porém, pouco fez diferença. Terminou a disputa em cima do pódio, na segunda posição, mesmo tendo largado em quarto lugar.
Assimilar o comportamento do carro nas pistas foi tão natural que Vinicius terminou a competição na quinta colocação geral. No ano seguinte, em uma categoria acima, a Fórmula Vee Light, foi campeão com uma etapa de antecedência.

A Fórmula Vee
Criada em 1960 e disputada no Brasil desde 1967, a Fórmula Vee é a mais popular categoria do automobilismo mundial, presente atualmente em cerca de 20 países.
Além do Brasil, é disputada também em lugares como Estados Unidos, México, Inglaterra, Alemanha, França, Austrália e África do Sul.
Berço de campeões como Nelson Piquet e Emerson Fittipaldi e campo de entusiastas das corridas como o ator Caio Castro, a Fórmula Vee desde sua origem tem como principal característica uma alta competitividade em carros de “baixo custo” – os mais acessíveis da modalidade e com peças originais.
Ver essa foto no Instagram
“Esporte de playboy”
O automobilismo é conhecido por ser um “esporte de playboy”. Coisa da elite. Quem entra sabe que para bancar é necessário muito mais que habilidade. O dinheiro não compra os resultados, mas é o principal responsável por criar as oportunidades.
Muitos dos pilotos ao nascer já largam na frente. Recebem as pistas como herança e com poucos anos de vida já são donos do kart próprio.
Vinicius não teve essa sorte e só foi pisar em um kartódromo pela primeira vez apenas aos 12 anos. Saiu de lá apaixonado pela velocidade.
Ele tentou entrar no automobilismo duas vezes, a primeira ainda quando sequer tinha CNH. O sonho colidiu de frente com os valores para se manter na modalidade.
“Meu pai falou: ‘ó, não tenho dinheiro, sua mãe também não tem’. Na época a gente não tinha carro, para você ter uma ideia. Então foi bem pesado falar para uma criança que o sonho dela não ia rolar”, contou em entrevista ao podcast Talk+.
Quando o automobilismo ficou distante, foi apresentado à versão virtual do esporte pelo irmão mais velho, Rodrigo. Seu companheiro diário passou a ser um volante de Playstation.
“Eu fiquei a adolescência inteira no simulador, um campeonatinho aqui, outro ali, mas nada muito sério, então eu foquei mais nos estudos. Virou um hobbie e ficou”.
A sala de aula levou Vinicius à faculdade de publicidade e propaganda. Era um caminho mais acessível por onde andar. O rapaz se formou e também trabalhou na área, mas não se sentia realizado.
Um gosto do automobilismo
Prazer mesmo Vini teve na primeira experiência dirigindo um carro, logo depois que tirou a habilitação, em 2017. Foi um presente da mãe, Edinauva, um dia de piloto no santuário de Interlagos.
No principal autódromo brasileiro, ele teve aulas práticas e teóricas e foi acompanhado por instrutores profissionais para guiar um carro de competição.
“Foi até engraçado. Eu fiz na Roberto Manzini [centro de pilotagem] e o irmão do Roberto chegou para mim e falou ‘olha… tá de parabéns, viu?’ Eu nunca tinha andado de carro mas eu sabia dirigir por conta do simulador. Eles fazem aulas, saídas para a pista com instrutor. Na segunda saída eu já estava indo sem instrutor”, lembrou.
Ainda que tivesse sentido o sabor de pilotar, a experiência ficou e Vinicius seguiu. A carreira no automobilismo ainda era inviável para a sua realidade, mas ela não saiu de seus planos nem por um milésimo de segundo.
Os estágios e trabalhos que arranjou com a publicidade serviram principalmente para montar um pé de meia pensando em pilotar de novo.
Em dezembro de 2020 surgiu essa oportunidade. Um treino de Fórmula Vee, em Piracicaba.
Vinicius participou e teve boa performance, mesmo nunca tendo corrido com um monoposto (carro de competição que comporta apenas uma pessoa, como os da Fórmula 1).
A realidade do automobilismo ainda era outra, mas alguns meses depois, chegou uma mensagem do dono da categoria anunciando um torneio para iniciantes, o tal Fórmula Vee Open. Os custos não eram tão absurdos e o pé de meia ajudou. Foi dada a largada na carreira de piloto.
Entrou tem que bancar
Assim como ingressar no automobilismo, se manter nele não é fácil. O piloto que pensa em um dia ganhar, antes paga para trabalhar.
A Fórmula Vee talvez seja um pouco fora da curva nesse sentido. Vinicius enxerga na categoria hoje um grande potencial em revelar talentos e uma porta de entrada para quem deseja viver das pistas.
Ele explica que, por mais que seja cara, a Vee oferece um custo-benefício para os pilotos que não se encontra em outras categorias.
“Ela oferece equipamento para você. O equipamento de um piloto é muito caro. Capacete, macacão, já vai quase R$ 15 mil. E ainda tem a indumentária. Sapatilha, luva, a roupa que vai embaixo do piloto antichama… isso encarece muito o esporte. Porque para o piloto primeiramente sentar no carro ele tem que gastar quase R$ 20 mil”.

Representando São José
São José dos Campos é seu lar há cerca de um ano e meio. Esse pouco tempo não impediu uma identificação grande de Vinicius com a cidade, que agora conta com um novo representante no automobilismo engajado com a comunidade e cheio de planos.
Para Vini, o esporte segue uma curva ascendente de popularidade e as competições têm voltado a atrair fãs da velocidade como costumava fazer no início dos anos 2000.
Aproveitando essa fase, ele mostra ambição em liderar um processo de desenvolvimento do automobilismo em São José, que conta com pouquíssimos pilotos hoje.
Recentemente ele ajudou a levar um grupo de estudantes de um colégio para uma experiência em Interlagos e pensa em repetir a dose outras vezes.
“Ouvi histórias de meninas querendo ser piloto. E outro querendo ser engenheiro mecânico. Eu levei eles, fiz um tour pelo autódromo inteiro, em dia de corrida, com macacão. Coloquei a criançada dentro carro de corrida. Eles nunca tinham experienciado aquilo e eu queria fazer isso muito mais vezes com escolas da região. Na minha época de escola eu adoraria que um piloto levasse a gente no autódromo para conhecer”.
Essa troca entre piloto e alunos foi fundamental para que Vini se enxergasse como parte de um propósito local.
“Não é legal ficar nichado. É legal ter divulgação, muito mais gente olhando para aquilo. Visibilidade. Encher autódromo. Fazer ativação. Nossa, foi sensacional. Isso trocou uma chavinha na minha cabeça que seria legal representar São José no automobilismo, porque não tem [representantes], e é legal ter”.
Treinos e estrutura
Vinicius carrega o nome de São José nas competições que disputa, mas não consegue encaixar seus treinos na cidade. São José atualmente não tem estrutura para o automobilismo. O cenário é o mesmo em outras cidades próximas no Vale.
“São José não tem um kartódromo. Se tem que treinar, a gente vai para Interlagos [São Paulo], Granja Viana [Cotia] ou Aldeia da Serra [Barueri]. Aqui na região pode ter um indoor ou outro que a gente desconhece”, relatou.
“Ia pegar o Vale inteiro e fazer um projeto legal, para a criançada nova, uma escolinha de pilotagem. Quem sabe não saia um piloto campeão de Fórmula 1 de São José dos Campos?”, continuou.

A falta do básico para que o esporte se desenvolva na cidade parte especialmente do desconhecimento das pessoas sobre o automobilismo, analisa Vinicius. Até mesmo os patrocínios, fundamentais para sustentar um piloto, são escassos na região.
“O conhecimento que tem de automobilismo provavelmente vai ser de Stock Car e Fórmula 1. Acabou. Só que a gente tem dezenas de categorias profissionais no Brasil que geram dinheiro, renda, empregam diversos trabalhadores e acaba que o empresário não conhece”.
Futuro: entre a Stock e Le Mans
O sonho e o segredo de carreira de Vinicius encontram lugar comum na resistência.
O ápice é conseguir alcançar a mítica corrida de Le Mans, na França, com 24 horas de duração, mas antes ele entende que precisa achar seu espaço no automobilismo nacional.
“Eu sou fanático por corridas de longa duração, que corre de noite, 24 horas de corrida. Não descarto essa possibilidade, mas o foco hoje é Brasil. Internacionalmente é uma possibilidade muito grande, mas antes eu preciso me consolidar aqui primeiro. A busca por patrocínio é aqui, Stock Car é o foco, o topo do automobilismo nacional”.
Leia outras matérias especiais:
Solo fértil para voar: piloto une paixões e cria cervejaria em São José inspirada na aviação
De portões fechados e coração aberto: o namoro que nasceu no Martins Pereira