Como estratégia para prevenir futuras pandemias como a causada pelo novo coronavírus, o Instituto Butantan produziu uma nova vacina contra a cepa H7N9 da gripe, classificada com potencial pandêmico.
A variante já causou seis epidemias na China e matou 40% dos infectados.
Um estudo publicado publicado na revista PLOS ONE e conduzido em parceria com a OMS (Organização Mundial da Saúde) mostrou que o imunizante é altamente seguro e apresenta boa resposta imunológica na fase 1 de testes.

Coordenado pelo Centro de Ensaios Clínicos e Farmacovigilânci, o estudo clínico de fase 1 incluiu 432 adultos de 18 a 59 anos e serviu para orientar os próximos passos do Butantan em relação à segurança e imunogenicidade da vacina, possibilitando uma resposta ágil em caso de pandemia.
Entretanto, por não existir gripe H7N9 no Brasil, não é possível avaliar a eficácia da vacina nas fases 2 e 3.
Um ponto a se destacar no imunizante, por outro lado, é a utilização de um adjuvante próprio do Butantan na produção, o que pode representar uma melhora na resposta imunológica.
Segundo a análise da PLOS ONE, os resultados da fase 1 confirmam que a inclusão do adjuvante IB160 na vacina pode dobrar a quantidade de doses produzidas com a mesma quantidade de IFA (insumo farmacêutico ativo), além de potencializar a resposta imune.
“Com uma dosagem de apenas 7,5 microgramas de antígeno, em conjunto com o adjuvante, já obtivemos uma alta resposta imune. Trata-se de metade da quantidade de antígeno usada em cada monovalente da vacina sazonal da gripe (15 microgramas). Ou seja, poderíamos vacinar o dobro de pessoas”, explica o gerente de desenvolvimento e inovação de produtos do Butantan, Paulo Lee Ho, que coordenou o desenvolvimento do adjuvante.
O adjuvante IB160
O adjuvante IB160 é baseado em uma emulsão de água e esqualeno, um lipídio naturalmente produzido pelo organismo com a função de armazenar energia.
O composto foi produzido após uma transferência de tecnologia do adjuvante análogo do Infectious Disease Research Institute (IDRI), dos Estados Unidos, conhecido produtor de adjuvantes vacinais.
No estudo clínico, a formulação do Butantan se mostrou superior à americana, induzindo maior produção de anticorpos (um aumento de 4,7 vezes contra 2,5 vezes).
Por conta do H7N9 sozinho induzir baixa resposta imune, o adjuvante torna-se essencial na busca por um imunizante efetivo contra a doença.
“O fato de termos um adjuvante nosso em mãos, sem necessidade de importação de insumos, é muito importante”, ressalta a bióloga e coordenadora de redação médica do Butantan, Maria da Graça Salomão, uma das autoras do artigo.
“A fase 1 não só nos orienta em que sentido progredir, mas nos capacita a entrar com pedido de registro da vacina futuramente, assegurando autonomia na produção do imunizante para o combate de epidemias”, completa.
Uso para outras vacinas
Segundo Paulo Lee Ho, o adjuvante do Butantan pode ser explorado em futuros estudos para desenvolver vacinas contra outras doenças ou para melhorar a resposta de imunizantes já existentes.
Além disso, o IB160 tem potencial de ampliar o número de doses produzidas usando a mesma quantidade de antígeno.
“No caso da vacina sazonal trivalente contra influenza, por exemplo, um ovo é usado para produzir uma dose [com três monovalentes]. Se eu usasse o adjuvante IB160, provavelmente conseguiria usar um ovo para duas doses [seis monovalentes], dobrando a quantidade de doses por ovo”, aponta o cientista.
Prevenção de pandemias

O Butantan também aposta na construção de uma fábrica de produção de Influenza sazonal como estratégia para a prevenção de novas epidemias e pandemias.
A planta, além de beneficiar a saúde pública ajudando a controlar a doença, também foi pensada para auxiliar o país a combater futuras emergências globais.
O projeto prevê que a fábrica possa ser adaptada facilmente para produzir outras cepas do vírus.
“Agora, se tivermos um surto de H7N9, estamos preparados para conduzir estudos de fase 2/3 de forma rápida e solicitar uso emergencial da vacina”, diz Paulo.
Vacina da gripe
Desde 2013, o Butantan fornece a vacina da gripe ao Ministério da Saúde para distribuição no SUS (Sistema Único de Saúde), com 80 milhões de doses entregues em 2022.
O produto foi incluído na lista de imunizantes pré-qualificados da OMS em 2021, o que permite que ele seja exportado para outros países do mundo.
Mais de um milhão de doses foram exportadas recentemente pelo instituto para o Equador, Nicarágua e Uruguai.
Acompanhe também: