Em visita a São José dos Campos durante um encontro com empresários, o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles comentou sobre suas expectativas para o novo Governo Federal, liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ao final do evento, um dos temas abordados na coletiva de imprensa foi o impacto econômico da possível moeda única entre Brasil e Argentina, que está sendo estudada entre a equipe de Lula. Em resposta ao jornalista Matheus Andrade, do Portal SP RIO+, Meirelles avaliou a medida como “limitada”.

“É uma coisa limitada. O que está se propondo é uma coisa similar a algo que já existiu quando eu era presidente do Banco Central. Na realidade, não é uma moeda comum. É uma criação de um meio de pagamento onde os exportadores brasileiros, que exportam para a Argentina, recebem aquela moeda. Depois os exportadores argentinos, por sua vez, recebem também. Então isso vai compensando ali. Os importadores brasileiros, quando vão pagar, vão ao Banco Central. Tudo feito através da conversão do Banco Central”, explicou.
Segundo o ex-ministro, a medida pode funcionar. Entretanto, ele se mostrou preocupado com o fato de a Argentina possuir baixo volume de exportações de produtos para o Brasil.
“A grande questão é que hoje o volume de exportações brasileiras para a Argentina é muito maior do que o da Argentina para o Brasil. Isso é que pode gerar uma dificuldade neste acerto de contas”, disse.
Em sua análise, Henrique Meirelles disse que o principal objetivo da possível nova moeda é solucionar os problemas que o nosso país vizinho possui com dólar americano.
Conforme ele explicou, na prática, a Argentina exportaria um produto para o Brasil e o Banco Central entregaria essa moeda. O Brasil entregaria a moeda para a Argentina e o Banco Central da Argentina entregaria essa moeda para o Banco Central brasileiro, que converteria em real e entrega para o exportador.
“A razão de tudo é exatamente a dificuldade da Argentina de obter dólar em suas exportações. […] O problema aí é ver como vai ficar essa conta entre os bancos centrais se não houver suficiente dose de exportações da Argentina para o Brasil”, disse.
Impostos para os mais ricos
Ainda durante a coletiva de imprensa em São José dos Campos, Henrique Meireles comentou sobre o desejo do presidente Lula de aumentar os valores dos impostos para as pessoas mais ricas.
O ex-ministro da Fazenda comparou a medida com os Estados Unidos.
“O segredo aí é definir o que é mais rico. Nos Estados Unidos, estamos falando em pessoas que têm milhões de dólares. Então essas pessoas acham que podem perfeitamente doar uma parte de seu patrimônio para instituições beneficentes e agora propõem que possam contribuir mais através de impostos. Esse é um movimento voluntário”, relembrou.
Segundo Meirelles, para ser efetiva, a ideia não pode prejudicar os empresários.
“A ideias boas que começam em outros países chegam aqui no Brasil e mudam um pouco. Que isso não seja entendido como aumento de impostos para empresários. […] Uma coisa são pessoas que têm bilhões, que têm dinheiro sobrando, outra coisa são pessoas que estão trabalhando, ou empresários e executivos que precisam reinvestir os resultados para continuar gerando emprego e renda”, ponderou.

Expectativas sobre o Governo Lula
O assunto principal da visita de Henrique Meirelles em São José dos Campos foi as suas expectativas para o Governo Lula.
Embora ele tenha elogiado os cortes de gastos no primeiro mandato do petista, Meirelles disse que torce para que nesta terceira passagem o presidente adote novamente uma política de redução de custos de funcionamento do Governo Federal.
“Tudo vai depender do Governo, que anunciou um aumento grande de despesas. Está faltando agora a parte importante, que é a questão dos cortes das despesas para que a gente possa ter um equilíbrio. Existe também um projeto de reforma tributária importante na Câmara, que deve seguir. Importante também é que haja uma reforma administrativa”, disse.
Ao final da coletiva de imprensa, o ex-ministro elogiou a trajetória do atual ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), mas se mostrou preocupado com o fato de ele não possui experiência na área econômica.
“Ele tem a confiança do presidente Lula, o que é importante. Uma boa relação. O presidente apoiar as decisões do ministro é importante. Ele é hábil, uma pessoa ponderada, o que também é importante. Ele não tem grande experiência com a administração econômica. Portanto, esse é o desafio dele, ter um bom desempenho nessa área”, finalizou.

Henrique Meirelles em São José dos Campos
Em São José dos Campos, Henrique Meirelles visitou o Hotel Golden Tulip, localizado nas dependências do Colinas Shopping, na região oeste.
O evento foi realizado durante a tarde pela unidade do Lide no Vale do Paraíba.
O almoço-debate foi fechado para a imprensa, pessoas credenciadas e sócios do grupo empresarial.
