Centenas de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) invadiram as sedes dos Três Poderes, em Brasília (DF), na tarde deste domingo (8) e praticaram atos de vandalismo em várias estruturas dos prédios públicos.
Nos ataques ao Palácio do Planalto, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal (STF), itens que compõem o patrimônio artístico e cultural brasileiro também foram alvo de depredação do grupo, que destruiu obras de arte, objetos de decoração e móveis raros.

Logo depois do ataque, diversas autoridades e instituições ligadas à proteção dos monumentos públicos se manifestaram contra os atos de destruição.
Em nota, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) classificou repudiou a invasão e classificou as ações como como “atentados graves contra as eleições democráticas, contra a segurança a população e também contra os acervos históricos do primeiro conjunto urbano do século XX reconhecido como Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas”.
“Arquitetas e arquitetos e urbanistas do país, em defesa da Nação, defendemos a pacificação das ruas, o restabelecimento do Estado Democrático de Direito e também o restauro do patrimônio público danificado pelos vândalos e criminosos que ameaçam a Ordem Constitucional vigente”, finalizou o comunicado.
Para a curadora de arte portuguesa Célia Barros, que veio morar no Brasil em 2005 e vive na cidade de São José dos Campos desde o ano de 2010, os atos do último domingo foram ataques à democracia muito claros.
Além disso, segundo Célia, a depredação de obras como as do escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret (veja mais abaixo todas as obras vandalizadas), “representa um gesto de egocentrismo e violência que simboliza a desvalorização da cultura e do patrimônio público”.
“Infelizmente não é novidade. A gente viu durante todo o governo Bolsonaro um desmantelamento das agências e instituições culturais brasileiras. […] É de fato vergonhoso, mas demonstra o posicionamento dessas pessoas, que sequer olham para o seu patrimônio enquanto público. Essas pessoas não valorizam a si próprias e estão violentando a si mesmas com esses atos terroristas”, avaliou a artista.
Pitiu Bomfin, artista plástica, educadora e curadora joseense, acredita que a invasão bolsonarista em Brasília “foi o ‘gran finale’ de um governo que gerou imagens assustadoras” e atuou no imaginário dos brasileiros com objetivo de destruir fisica e simbolicamente a arte e a cultura no país.
“Destruir obras de arte é atingir a historia de um país da maneira mais violenta que existe. Não podemos banalizar o ocorrido. A valorização da nossa Arte e Cultura é urgente e acredito que processos criativos que permitem a verdadeira expressão cultural de comunidades e grupos trazem novas possibilidades de diálogos onde a diversidade e as questões sociais podem ser elaboradas e representadas positivamente”, destacou a artista.
Análise preliminar: ao menos R$ 8 mi de prejuízo
Ainda não se sabe a quantidade exata de obras que foram impactadas pela ação dos golpistas, mas estima-se que pelo menos 20 sofreram algum tipo de dano ou foram furtadas.
Um levantamento preliminar divulgado pela Presidência da República nesta segunda-feira (9) traz uma lista com telas, esculturas e outras peças do acervo atacadas em que o prejuízo total estimado supera os R$ 8 milhões. No entanto, o prejuízo histórico e cultural é incalculável.
Segundo Rogério Carvalho, diretor de Curadoria dos Palácios Presidenciais, o restauro da maioria das obras vandalizadas é possível, mas a recuperação do Relógio de Balthazar Martinot, destruído pelos bolsonaristas, é vista como muito difícil.
Obras destruídas pelos bolsonaristas nos atos de domingo (8) em Brasília
Relógio de pêndulo de Balthazar Martinot
O relógio do Século XVII, do famoso relojoeiro Balthazar Martinot e presente da Corte Francesa para Dom João VI, foi completamente destruído pelos invasores do Planalto.
Atualmente existem apenas dois relógios de Martinot no mundo. Um deles é o disponível em Brasília, enquanto o outro está exposto no Palácio de Versailles, mas possui a metade do tamanho do relógio encontrado no Brasil.
Considerado raro, o relógio ficou desfigurado depois dos ataques do grupo neste domingo. O objeto teve ponteiros e números arrancados, além de uma estátua de Netuno, que ornamentava seu topo, retirada.
A última avaliação do relógio, realizada em 2012, após passar por uma restauração, estimou o valor da peça em R$ 250 mil. No entanto, uma nota publicada nesta segunda pelo Governo Federal afirma que “o valor desta peça é considerado fora de padrão”.
Mulatas, por Di Cavalcanti

A tela ‘Mulatas’ (1962), do pintor brasileiro Di Cavalcanti, que ficava localizada em uma parede do terceiro andar do Palácio do Planalto, foi esfaqueada em ao menos sete pontos pelos manifestantes e encontrada com rasgos de diferentes tamanhos.
Jones Bergamin, diretor da Bolsa de Arte, acredita que a tela fosse à leilão, deveria ser avaliada entre R$ 10 milhões e R$15 milhões.
Em nota, a Presidência da República afirmou que seu valor é estimado em R$ 8 milhões, mas peças desta magnitude costumam alcançar valores até 5 vezes maior em leilões.
Araguaia, por Marianne Peretti
No Salão Verde da Câmara dos Deputados, o painel de vitral ‘Araguaia’ (1977), da artista franco-brasileira Marianne Peretti (1927-2022), foi danificado pelos golpistas, mas não há confirmação até então de qual o panorama de estrago da obra.

Bailarina, por Victor Brecheret
A escultura de bronze ‘Bailarina’ (1920), produzida pelo escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret (1894-1955), foi retirada de sua base, no acervo da Câmara dos Deputados, e ainda não foi encontrada. A suspeita é de que ela tenha sido roubada por bolsonaristas em meio aos ataques no prédio.

O Flautista, por Bruno Giorgi
Já a escultura ‘O Flautista’ (data não especificada), também em bronze e feita pelo artista Bruno Giorgi (1905-1993), foi encontrada completamente destruída, segundo relatos. Ela era avaliada em cerca de R$ 250 mil.

Justiça, por Alfredo Ceschiatti
Uma outra escultura danificada pelos radicais foi ‘Justiça’ (1961), do mineiro Alfredo Ceschiatti (1918-1989).
Esculpida em granito e localizada em frente ao prédio do STF, a obra foi pichada com “Perdeu, mané”, frase que faz referência à resposta do ministro Luís Roberto Barroso após ser hostilizado por um bolsonarista em Nova York no mês de novembro do ano passado.

Retrato de José Bonifácio de Andrada, por Oscar Pereira da Silva
O retrato de José Bonifácio de Andrada, conhecido como o ‘Patriarca da independência’, pintado por Oscar Pereira da Silva, também foi vandalizado no Palácio do Planalto.
Os golpistas desenharam, no rosto do naturalista e político retratado na tela, um bigode parecido com o do líder nazista Adolf Hitler com caneta azul.

Bandeira do Brasil, por Jorge Eduardo
A pintura ‘Bandeira do Brasil’ (1995), do artista Jorge Eduardo, foi encontrada boiando sobre a água que inundou todo o térreo do Palácio do Planalto, após vândalos abrirem os hidrantes do local.
A obra reproduz a bandeira nacional hasteada em frente ao palácio e serviu de cenário para pronunciamentos dos presidentes da República.

Réplica da Constituição de 1988
Na invasão ao prédio do STF, os bolsonaristas também pegaram uma réplica da Constituição de 1988 que era exposta no Salão Branco da Suprema Corte. O exemplar original, segundo o STF, está guardado no museu do tribunal, no subsolo da Corte, e não foi vandalizado.
Outras obras danificadas
Escultura de parede em madeira de Frans Krajcberg — quebrada em diversos pontos, a obra se utiliza de galhos de madeira, que foram quebrados e jogados longe. A peça está estimada em R$ 300 mil.
Mesa de trabalho de Juscelino Kubitscheck — exposta no salão, a mesa foi usada como barricada pelos terroristas e a avaliação de seu estado geral ainda será feita.
Mesa-vitrine de Sérgio Rodrigues — o móvel, que abriga as informações do presidente em exercício, teve o vidro quebrado.
Galeria dos ex-presidentes — foi totalmente destruída, com todas as fotografias retiradas da parede, jogadas ao chão e quebradas.
O corredor que dá acesso às salas dos ministérios que funcionam no Planalto foi outro ponto vandalizado. No local, há muitos quadros rasurados ou quebrados, principalmente fotografias.
O estado geral de diversas dessas obras ainda não pôde ainda ser avaliado e somente será divulgado após a perícia e limpeza dos espaços.
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