
Diferentemente do que muitas pessoas pensam, o processo de canonização de um santo católico é muito demorado e criterioso. É o que explicou à SP RIO+ a Irmã Lidiane Eufrásio, religiosa do Instituto das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada (IPMMI), fundado em São José dos Campos por Madre Maria Teresa de Jesus Eucarístico durante o período sanatorial da cidade, cuja beatificação está em andamento em Roma.
Madre Maria Teresa teve suas virtudes heroicas reconhecidas pelo Papa Francisco em 2014 e hoje é considerada Venerável, mas ainda não foi oficialmente reconhecida como Santa. A religiosa destacou-se pelo acolhimento humanizado aos doentes de tuberculose, tornando-se uma das mais importantes personalidades do período sanatorial de São José, na década de 1920.
“Se colhe tudo que a gente pode ter, tanto das irmãs, de coisas extraordinárias que aconteceram e que irmãs foram testemunhas, como depois relatos que vão vindo de pessoas que pedem graças pela intercessão”, explicou Irmã Lidiane.
Entretanto, uma das etapas mais difíceis, segundo ela, é a comprovação de um milagre ou graça realizada.
“É dificil, porque a ciência não tem como provar. Mas a gente tem que ter toda uma comprovação de prontuário médico. O médico tem que dar um laudo dizendo que ele não vê explicação científica. E tem que estar muito bem relatado isso para que Roma possa olhar com bons olhos. Também se faz uma segunda análise em cima disso. E tem que mostrar que essa pessoa pediu para a Madre Maria Teresa a graça, algo que seria impossível aos olhos humanos”, explicou.

Possível graça
A recente recuperação hospitalar de um garoto tem sido considerada pelas religiosas do Instituto como uma possível graça realizada pela madre.
Conforme contou Irmã Lidiane, a criança teria sido arrastada por cerca de 1 km por um cavalo em que estava amarrada enquanto galopava, ficando com várias fraturas no corpo e no rosto.
Depois de ficar em coma por dias, sob risco de morte e sem previsão de alta pelos médicos, o menino teria se recuperado graças à intercessão de Madre Maria Teresa.
“Então nós nos unimos, os colaboradores, a família, ela [a mãe], pedindo a intercessão da Madre, que pudesse melhorá-lo. E próximo ao Dia das Mães ele recebeu alta hospitalar sem sequela nenhuma. Esteve conosco em casa, para agradecer. Foi muito emocionante, até estou me segurando aqui de lembrar da cena dela vindo”, relembrou Irmã Lidiane, emocionada.
Segundo a a religiosa, a possível graça ainda não foi oficialmente reconhecida pela Santa Sé, mas é vista com bons olhos pelas irmãs do IPMMI.
“Quando ela [a mãe] foi com o menino andando, sem sequela, nem mancando, o menino bem, foi mesmo uma coisa, para nós, visivelmente muito extraordinária. E para o médico também. Para nós, é uma graça muito grande”, destacou.
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Títulos canônicos
Durante a entrevista à SP RIO+, Irmã Lidiane também comentou sobre as etapas da canonização de uma pessoa. Ela explicou que o primeiro passo é o reconhecimento da Diocese e dos fieis locais, seguido da confirmação de Roma, que resulta no reconhecimento oficial daquela pessoa como “servo de Deus”.
Além disso, ela destacou que São José dos Campos possui outras duas personalidades reconhecidas com esta nomenclatura.
Um deles é Antoninho da Rocha Marmo, criança que veio à cidade para também se tratar da tuberculose no período sanatorial e que desenvolvia um trabalho de evangelização. Em sua homenagem, há um hospital que leva seu nome na região central da cidade.
Outro “servo de Deus” é o advogado Franz de Castro Holzwarth, que se destacou na cidade na defesa de presos.
Conforme ela explicou, já o título canônico de Madre Maria Teresa, Venerável, significa que a Igreja reconhece que pode-se pedir graça à ela, como é o caso do também Venerável Padre Rodolfo Komorek.
O salesiano polonês também desenvolveu um trabalho em prol dos tuberculosos em São José dos Campos. Em sua homenagem, um cemitério na região central da cidade leva o seu nome.
Sobre a Madre Maria Teresa de Jesus Eucarístico
Madre Maria Teresa de Jesus Eucarístico chegou a São José dos Campos em 7 de junho de 1922, aos 21 anos, para se tratar da tuberculose. Logo em seguida, iniciou um trabalho humanitário, com o propósito de oferecer dignidade e esperança para essas pessoas durante o período sanatorial.
Então, em 8 de novembro de 1936, nascia a Congregação das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada que, com o passar dos anos, expandiu sua atuação no Brasil, Itália, Portugal e África.
Em junho deste ano, a Congregação celebra os 100 anos da chegada da religiosa a São José dos Campos.
Além disso, o local onde Madre Maria Teresa viveu, trabalhou e conduziu sua obra durante o período sanatorial da cidade foi restaurado e inaugurado em agosto de 2020. O acervo do Memorial, que é aberto para visitação do público, conta a história de vida da religiosa, revelando aspectos de sua compaixão pelos doentes e de sua grande obra social e espiritual.

Atualmente, a Congregação administra 5 hospitais, nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina, Instituições de longa permanência para idosos, centros de formação humana e religiosa e um residencial para moças. Realiza ainda um trabalho de acolhida a pacientes com câncer, pastoral da saúde e assistência a sacerdotes.
Ademais, há mais de 10 anos, participa de uma missão humanitária na África (Missão de Dombe, Moçambique) onde é responsável por um ambulatório médico, que realiza cerca de 2.500 atendimentos por mês. Também realiza trabalho missionário em Portugal e na Itália.