
Ele me acompanha desde que nasci. Inicialmente nossa relação era tempestuosa. Não o compreendia muito bem e achava que determinava seus acontecimentos. Puro controle! Ansiosa, desejava tudo pra ontem.
Aprendi a ler antes da hora, comecei a namorar quando ainda deveria brincar de boneca, me formei enquanto muitos, na minha idade, ainda iniciavam os estudos universitários. Precoce, corria sempre na frente dele e fazia acontecer, convencida que minha sede insaciável de vida poderia se acabar.
Passado alguns anos tive outro tipo de descompasso. Comecei a me nutrir das lembranças de momentos vividos creditando a eles os melhores acontecimentos. Nostálgica, rememorava cheiros, gostos e sensações esquecendo muitas vezes do hoje que me cercava. As músicas ouvidas eram de anos atrás, as cores, opacas como revelações de fotos antigas, e até as roupas correspondiam a uma Rachel que não mais existia. Deixando-o caminhar muito à minha frente me habituei a ficar preguiçosamente alguns passos pra trás.
Após nossos vários desencontros ele gentilmente me pegou pela mão. Como uma criança inexperiente me apresentou o presente e toda a beleza que nele existia. Não identifico com precisão o dia em que essa mágica aconteceu, mas reconheço que nos unimos numa amizade sem fim. Passamos a caminhar lado a lado, ainda que, de vez em quando, aprecie diminuir o passo pra recordar ou dar umas corridinhas pra frente para espiar o futuro.
Meu fiel amigo chama-se tempo e nossa intimidade só cresce. Ele tem me mostrado todas as transformações de uma vida bem vivida. Tem me curado de feridas do passado e me ajudado a sonhar com expectativas mais palpáveis. Nossos fortes laços têm afastado as angústias de antes e o meu medo do futuro. Nossos diálogos me ensinam sobre a vida única e indivisível.
Seus filhos, os anos, sempre me cutucam quando passo pela parede de fotos dos vários ontens e me sussurram que tudo o que foi experimentado formam o meu agora!
Seus netos, os dias, me divertem com as sensações deliciosas presentes nas ações cotidianas e simples como respirar, comer e andar. Esses automáticos atos se tornaram mais intensos e cheios de energias, pois antes eram gastos em momentos dispersos e diferentes dos vividos.
O tempo é assim, honesto e paciente. Generoso, nos convida diariamente a apreciarmos, sem moderação todos os gostos, ora selecionando-os, ora apurando-os. O que ele quer da gente é isso: uma vida cheia de sentido e no compasso certo merecendo, de “tempos em tempos”, nossa gratidão!