
Foto: Arquivo Pessoal
Desaceleração. Movimentos lentos. Diminuição do ritmo externo para aumento do espaço interno. Contemplação. Apreciação. Apuração. Perceber as sensações de forma atenta e plena. Caminho delicioso para desvendar o que nos toca, dando novos sentidos às coisas, ao mundo.
Pássaro que canta e traz a natureza para dentro de mim. Orquídea que floresce e me lembra da força do ciclo da vida. Toque da brisa que reaviva o meu corpo. Cheiro de terra molhada que acolhe minhas lembranças. Gosto amargo do café que traz uma sensação doce e me acompanha no entardecer.
Nossos sentidos estão abertos para que o mundo se faça e se conheça dento de nós. Mas a observação atenta, calma e reveladora depende da nossa disponibilidade em desfrutar cada estímulo no seu espaço, no seu tempo. Ausência, presença. O cheio e o vazio. O Ser e o parecer. No ir e vir dos dias vamos vivendo. Acordar, comer, trabalhar, teclar, comer, trabalhar, teclar, cuidar, limpar, comer, dormir.
O cotidiano, a mesmice nos impregna e nos anestesia. A repetição economiza nossa atenção, nos poupa do esforço cognitivo. O automatismo se transforma em hábito e adquirimos o hábito de ter hábitos, que nada mais são manias despidas de significação. Essa repetição traz uma espécie de segurança ontológica, uma negação às aventuras, às novidades e despertar de novas sensações.
Ah!!! Mas, felizmente a vida tem seus caprichos e mistérios! De forma desavisada e sem pedir licença somos tocados e despertados. É um cheiro de infância, um toque de aconchego, um gosto do passado que nos sacode e nos relembra da vida e seus sentidos. Percebemos a graça do viver e recuperamos o Ser. Atentos, sentimos. Atentos, Somos. Depois, voltamos para os automatismos, pois assim se faz a engrenagem da vida.
Triste, sem tempero e sem cores não são as repetições, mas o endurecer e a falta de disponibilidade para o sentir. Dos pequenos prazeres e despertares é que a vida ganha graça. Portanto, escute, deguste, toque, inspire e contemple. Na simplicidade das sensações dos nossos sentidos somos continuamente transformados para ser cada vez mais um pouco de nós mesmos!