Foto: Arquivo Pessoal
Hoje, dia dos Namorados: por Fábio Almeida
Ah, quarentena… exercício pleno de vivência e compreensão do significado “juntos na alegria e na tristeza”, das oscilações extremas, expectativas e frustrações. O dia a dia nos levou para o limite da paciência. Os constantes isolamentos na sacada, as incontáveis reclamações, todas as tentativas de ocupação mental e repetição de fazeres na frustrante tentativa de nos desviar dos novos problemas. A frenesia pulsante das interações virtuais, escreve uma reflexão aqui, assiste uma live depois, faz um curso, termina a pesquisa do pós-doc, inventa um projeto com fulana, alimenta o blog, tec tec tec do teclado… tudo em vão.
As cotidianas comissuras labiais acentuadas, de tão insistentes acabaram fazendo o melhor. Foi o momento em que no silêncio do café, durante o pôr do sol alaranjado, em que eu implorava pra levar todo o amargor daqueles dias, e imaginava tudo de ruim diminuindo na velocidade do crepúsculo, sem pressa, que percebi.
Num piscar de olhos, enquanto o café esfumaçante e de aroma intenso tocava os lábios dela, os olhos levemente frisados, a singela e tímida troca de expressão facial me despertou! No exato momento tudo parou e permitiu a percepção do óbvio, do que havia se tornado abstruso por puro egoísmo. De fato sou chato, impaciente, nervoso, crítico, teimoso, deveras imperfeito.
Dois sorrisos se encontraram para lembrar o quanto tudo aquilo que experimentamos na quarentena era infinitamente menor do que o sentimento que nos uniu. Sem protocolos e num inesperado ajustamento, resolvemos novamente deixar as “portas e janelas abertas pra sorte entrar”, olhar ao redor, e mesmo de improviso, usar todos os sentidos para mudar positivamente as percepções.
Tirar o melhor de cada segundo vivido e aumentar a opacidade daquilo que deixamos invisível, até a sua nitidez brilhar intermitentemente em harmonia com o equilíbrio natural do universo, da noite após o dia, do sol após a chuva, do vento após a calmaria, do sorriso após a comissura.
P.S. As flores mais lindas estão no nosso jardim!
