Foto: Arquivo Pessoal
A conversa e a algazarra eram intensas! Todos falavam ao mesmo tempo. Um desafiava o outro competindo sobre quem conhecia melhor a dona daquele lugar. Num andar, as charmosas lingeries conversavam calmamente e não temiam cair no esquecimento. No andar do meio estavam as camisas de malha, felizes e gratas ao momento universal. Nunca tinham sido tão bem utilizadas!
Em outro andar, as roupas de ginástica comemoravam, juravam que a mulher tinha virado atleta, pois eram sempre solicitadas. No andar de baixo, os pijamas esbanjavam! Reinavam e, convencidos, discursavam que se tornaram os preferidos da proprietária. Nos cabides, os queridinhos vestidos estavam entristecidos e nem discutiam mais. Desiludidos, sentiam-se completamente abandonados! Na prateleira ao lado moravam os sapatos que compartilhavam as dores dos vestidos.
Estavam sendo completamente ignorados! Argumentavam que quem tinha vez por ali eram: o velho par de chinelos, as pantufas fofinhas e o desgastado tênis. Todos discutiam intrigados com as novas mudanças daquela mulher: “ela sempre foi tão diversificada no vestir! Acolhia com frequência novos amigos dentro do armário!”
Cogitaram que poderia ser doença, tristeza, mudança de profissão e, talvez, uma mudança de estilo de vida! Em meio a toda confusão, a calça de moletom, que circulava quase que diariamente pra fora do armário, tentou esclarecer: “por hora, nossa dona vai preferir as peças mais confortáveis e macias. Precisamos tocá-la carinhosamente e lhe oferecer proteção e unidade. Irmãs feitas de algodão: estejam sempre a postos! O mundo lá fora tá tenso e ela espera algum tipo de aconchego quando nos veste. Precisamos ajudá-la! Saltos e roupas justas: sinto muito! Não tenho previsão de quando se libertarão daqui. Aos demais esclareço: ela não está triste, nem doente, apenas mais pensativa e moderada”.
Ao fim da fala da calça surrada, as peças do guarda-roupa foram surpreendidas pela dona do estabelecimento. Ela chegou, abriu a porta e ficou parada. Sem hesitação escolheu o líder moletom, a camisa de malha e as pantufas. A fusão do corpo com as roupas foi rápida e evidente: um ajustamento perfeito! As demais peças do armário, empáticas, compreenderam melhor a situação. Aguardariam o momento de serem novamente utilizadas, conscientes que eram parte importante da identidade daquela mulher. Esperariam, com esperança, novos tempos.
