Foto: Arquivo Pessoal
Os olhos abrem e fecham. A saliva é deglutida. O coração pulsa. O ar entra e sai do corpo. O sangue circula. O estomago ronca. Movimentos automáticos, muitas vezes, imperceptíveis! Diariamente tudo é orquestrado de forma harmoniosa e quase silenciosa. Na quietude involuntária também sou invadida por vozes que lutam pela minha atenção: são os meus pensamentos!
Nem sempre educados, não costumam respeitar os turnos de fala e se atropelam. Oro, medito e respiro para organizá-los. Esses ruídos somam-se aos sons provocados pelos meus movimentos conscientes. Caminho, corro, dou gargalhadas, suspiro e choro. São sons que anunciam minha vida.
Na rua os sons ambientais misturam-se aos meus próprios sons, mas o encontro é confortável e bem acomodado. Ainda convido uma música para acompanhar meu trajeto até o trabalho. Há espaço para estímulos auditivos variados. A música entra pelos meus ouvidos, inspira a mente, toca a alma, eriça os pelos do corpo, encontra o coração.
Lembranças são ativadas, novas memórias são arquivadas. No silêncio do meu consultório, aguardo meu paciente. Escuto os passos aproximarem-se da minha sala e, após meses de distanciamento, escuto a voz rouca e senil soada como melodia para os meus ouvidos. Nossas vozes se encontram no ar, abafadas pelas máscaras, mas gratas pelo reencontro.
Ouço e escuto atentamente os relatos angustiados de uma pandemia ainda evidente. Sinto nossas vontades de abraços encarceradas e expressas por meio de uma deglutição seca que aperta a garganta. Após a consulta nos despedimos. O silêncio toma conta do meu espaço novamente. Escuto meu suspiro pelos medos e anseios de uma nova fase que está nascendo.
Uma tentativa de retorno à vida normal sem nada igual. Não há normalidade, não há retorno. Todos estamos transformados e afetados! A polifonia de vozes receosas em minha cabeça volta a tornar o meu pensar ensurdecedor. São muitos os questionamentos!
Respiro e me concentro nos outros sons do meu corpo. As vozes se acalmam. Uma ligação resgata meu sorriso: ouço a voz do meu filho. Acolho os sons, o momento. Estou viva! Dou eco à minha resiliência. Agradeço e descanso no som do silêncio.
