Foto: Arquivo Pessoal
Acordo e preguiçosamente vou até o banheiro. Encontro, do outro lado espelho, uma figura não muito agradável. Quem fica feliz com uma cara amarrotada e recém acordada? Mesmo assim, minha imagem envia um sorrisinho discreto para mim. Lavo o rosto para tirar revitalizar minha energia para o dia que se apresenta. Tomo café e, antes de retornar para o quarto, paro diante do grande espelho que está no corredor.
Olho de forma cuidadosa e atenta para meu corpo inteiro ali refletido. Reconheço um rosto mais enrugado, um corpo mais roliço, uma barriga atrevida que insiste em se mostrar e pernas mais robustas. Ah, quarentena, quantos quilos você me trouxe? Percebo meus cabelos revoltos e bemmm cheios emoldurando minha face, num contraste de pele pálida e madeixas escuras. A imagem esboça, de novo, um breve sorriso. Prossigo com meus afazeres.
Começo a estudar e, lendo, lembro da Imagem refletida que parece querer conversa. Vou logo justificando que é melhor não ter cobranças quanto à aparência, pois o momento é crítico e há de se dar um desconto. A minha Imagem inicia uma discussão com meu Intelecto que relembra: “você trabalha com imagem e precisa resolver esse mal estar!”. Largo os livros e volto para o espelho. Um pouco irritada, encaro novamente o espelho e foco nos meus lábios, que tanto aprecio. É assim que ensino as pessoas a fazerem as pazes com o espelho, começando a olhar para o que se gosta.
Retesto o próprio conselho. Sorrio e as rugas se acentuam formando linhas diversas, especialmente no canto dos olhos. Acaricio essas marcas e agradeço pelos anos vividos. Prendo o cabelo e sinto-o macio. Não está bonito, mas o toque é sedoso. Vejo a barriga que parece que grita nessa conversa. Providencialmente, escuto meu filho conversando no quarto ao lado em suas aulas on-line. Lembro que a proeminência, que um dia aqui se instalou (e não desapareceu totalmente), deve-se a melhor das minhas lembranças.
Nesse momento, minha Alma resolve fazer parte da conversa junto à Imagem e ao Intelecto. Ela me faz perceber um corpo tenso, ali refletido, com articulações enferrujadas. Entristeço. Rapidamente, a bondosa alma logo me faz notar a nova leveza e aceitação bem articuladas com valores redescobertos na quarentena. Lembra-me ainda da escassez dos exercícios físicos, mas me faz celebrar o novo condicionamento para as coisas do coração.
Olho profundamente para meus próprios olhos, que já estão mareados, e faço o Intelecto, a Imagem e a Alma darem as mãos. Alegro-me com a mulher do espelho e lhe envio um sorriso verdadeiro, minha melhor maquiagem. Confiante, por ter feito as pazes com o espelho, me preparo para a ida ao supermercado. Abotoo o amor próprio, visto a aceitação, calço as esperanças e me perfumo com sonhos. Do armário, levo a bolsa cheia de gratidão pelos aprendizados dos dias de quarentena.
