O médico Othon Becker durante a votação que o elegeu presidente do Comus. Foto: Flávio Pereira/CMSJC
Em plena pandemia do novo coronavírus, três dos quatro integrantes da diretoria do Comus (Conselho Municipal de Saúde) de São José dos Campos renunciaram aos postos.
O grupo havia tomado posse em junho de 2019, para um mandato de dois anos. A primeira renúncia, no dia 28 de abril, partiu do presidente do conselho, o médico Othon Becker, que segundo a prefeitura “alegou problemas de ordem particular e familiar para seu afastamento”. Becker havia sido eleito como representante dos trabalhadores.
No dia 4 de maio, o 1º secretário, Adelino Pezzi (representante da Regional Sudeste e ex-presidente do Comus), e a 2ª secretária, Laura Marroco (representante do Centro Dandara), também renunciaram aos cargos na diretoria, também sob a alegação de “razões pessoais”.
De acordo com a prefeitura, a presidência do conselho foi assumida pelo vice-presidente, o advogado Clarisvan do Couto Gonçalves, que é representante da Secretaria de Saúde. Novas eleições para os cargos vagos devem ser realizadas em até 60 dias.
CLIMA RUIM
O Comus é composto por 64 conselheiros, sendo 32 titulares e 32 suplentes. O órgão, de caráter deliberativo, é formado por representantes dos segmentos usuários, trabalhadores da área de saúde, prestadores de serviços e gestão pública. Devido à pandemia de Covid-19, as reuniões mensais do conselho estão suspensas.
Dois conselheiros, ouvidos pela reportagem sob a condição de anonimato, disseram que o clima no Comus começou a ficar ruim na semana passada, após o governo Felicio Ramuth (PSDB) anunciar a terceirização temporária de três UBSs (Unidades Básicas de Saúde) – as unidades serão assumidas por seis meses por três OSs (Organizações Sociais), que receberão R$ 5,74 milhões.
A decisão de terceirização temporária não foi submetida ao Comus, que foi notificado apenas após a medida já ter sido oficializada – o anúncio foi feito pela prefeitura no dia 27 de abril, um dia antes da renúncia do presidente do conselho.
Segundo os conselheiros ouvidos pelo jornal, um dos pontos que geraram discórdia foi o fato de que uma das OSs contratadas – o HMTJ (Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus), gestor do Hospital de Clínicas Sul, que assumirá a UBS do Parque Industrial – tem entre suas diretoras a esposa do secretário de Saúde, Danilo Stanzani, que também é conselheiro no Comus. Iara Raquel Ribeiro Melo Stanzani é diretora clínica do Hospital de Clínicas Sul. Em outubro de 2019, a pedido do Ministério Público, a Justiça impediu o HMTJ de assumir a gestão da UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Campo dos Alemães, por entender que a situação configuraria nepotismo.
“Nós, como conselheiros, respondemos perante a Justiça se der algo errado. E fomos simplesmente colocados de lado [na decisão sobre a terceirização]”, disse uma conselheira ouvida pela reportagem.
SILÊNCIO
A reportagem procurou nessa quarta-feira (6) os quatro conselheiros que integravam a Mesa Diretora do Comus. Othon Becker não atendeu as ligações e não retornou as mensagens. Adelino Pezzi disse que, por “questão de ética”, o assunto será tratado internamente. “Questões internas devem ser discutidas dentro do conselho”, afirmou. Laura Marroco não foi localizada.
Já Clarisvan Gonçalves, novo presidente do conselho, negou que a terceirização das UBSs tenha provocado a renúncia dos outros três diretores. “Não teve nada disso. O presidente se desligou por questões particulares, pessoais”, disse. “Não teve nenhuma ligação com a questão das UBSs”, completou.
