Foto: Reprodução
Da janela, eu contemplava a paisagem. Na mesa ao lado, uma taça. A claridade conferia uma cor especial ao vinho. Vinho, bebida elegante, degustada em pequenas doses. Não o associo com a embriaguez, por ser uma bebida que não combina com o fora de si. Sua escolha faz das ocasiões cotidianas momentos especiais.
Tem apelo pedagógico, pois tem mais valor à medida que envelhece. Suave na ingestão e forte em sua composição. Sua cor lembra a intensidade do viver, de uma presença plena. As marcas na borda da taça registram o contato dos meus lábios. Do celular recebo fotos de uma amiga de infância que resolveu acessar as marcas de nossa memória juvenil. Conecto-me a este passado e às lembranças de sentimentos puros e intensos.
Concordo com Goethe, que diz que a juventude é a embriaguez sem vinho. Quantas vontades e planos pra tão pouca idade! Me emociono com as recordações. Sinto de novo a força da amizade, a vivacidade do amor e as páginas em branco de uma vida jovem que tanto sonhava. Olho hoje para a minha própria vida e percebo que outras histórias foram tecidas. Aceito, me perdoo e acolho as minhas escolhas. Cutuco as cicatrizes e agradeço pelas marcas que ficaram em minha memória.
Volto para a taça. Mais um gole, mais uma palavra, mais sentimentos. Agradeço pelas pessoas especiais que me marcaram com ponto de exclamação! Transformei-as em vírgulas para continuar minha história. Hoje, percebo que elas estão impressas nas minhas palavras, na minha vida! Relembro de um a um e transformo todo o amor intenso da juventude em uma oração por suas histórias após nossos encontros. Agradeço ao verdadeiro amor da liberdade por ser quem eu sou.
Olho para o vinho e vejo meu reflexo na taça. Brindo as marcas do meu passado, a intensidade do presente e ao que ainda me espera. Brindo a possibilidade de fazer as pazes com minha história nessa quarentena. Olho pela janela e desafio a tristeza que insiste lá fora. Brindo a vida atenta que mora em mim num mundo sem fim!
