Foto: Arquivo Pessoal
Acordei e vi, no calendário do celular, que hoje o mês de abril se encerra. Um mês com dias atípicos para se recordar. Gosto de refletir sobre os nomes das coisas e detenho minha análise na palavra ABRIL.
O que será que se “abril” nesse mês? Abri os meus olhos para ver o que estava longe e agora está perto: meu lar, as paredes da minha casa e do meu corpo, o movimento inocente do meu filho, o sorriso do marido, as rugas no rosto, agora cuidadosamente observadas no espelho.
Abri meus ouvidos para a escuta de singelos sons, antes desconsiderados, agora bem sentidos: o som da minha respiração, do meu suspiro, dos pássaros nas ruas, das vozes queridas ao telefone. Abri os gatilhos para o acesso às minhas memórias e lembranças de um passado distante e de recordações frescas que acariciam o meu coração.
Abri os cadeados lacrados das minhas relações e notei o fluir das amizades, um movimento leve e contínuo que aproxima e afasta pessoas, num fluxo natural da formação de vínculos. Abri as nascentes do choro e deixei fluir lágrimas ao escutar serenatas na varanda, ao ver as notícias do dia e ao escutar um áudio carinhoso de alguém que se preocupa comigo.
O mundo se abriu para as possibilidades digitais com “lives” informativas, musicais e cursos on-line. Abriram-se nossas percepções de que a vida e a morte aparecem diante de todo ser vivo, sem levar em conta a cor, condição financeira ou região do mundo em que se vive. Abriram-se corações para atos de solidariedade no momento de maior fragilidade que nossa sociedade se depara. Abriram-se as portas para sentimentos colaterais à crise virótica como angústia, ansiedade e medo coexistentes com doses de amparo, cortesia e fé. Abriu-se e ampliou-se a nossa incredulidade na política do país, que pouco tem se importado com as vidas apagadas e empilhadas como sacos de descaso.
Abril se foi, mas não a capacidade de reinvenção e transformação. Respiro e fecho, num breve instante, osmeus olhos para o Abril intenso e metamórfico. Abro-os já desejando um mês de Maio diferente do previsto, com dias melhores, cheios de boas surpresas e regados por coragem, fé e esperança!
