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Como é bom rememorar! O tempo calmo e sem urgências da quarentena tem me permitido acessar caixinhas curiosas dentro do meu cérebro! Resolvi abrir a prateleira cerebral dos meus livros buscando acessar àqueles que tiveram significado especial para minhas escolhas profissionais. Encontrei, na gaveta de 1996, o livro “Bem-vindo à vida” do psiquiatra Eduardo Aquino.
No livro é narrada a história de um neurocientista que descobre uma doença fatal e começa a refletir sobre a fé, ciência, corpo e alma. O livro me marcou por tratar da morte com ênfase na vida, algo bem curioso para uma jovem ingressante na área da saúde. Após me formar em Fonoaudiologia, tive o privilégio de trabalhar em um hospital de reabilitação, onde passei a conviver mais de perto com doenças imobilizantes, incuráveis, com a morte, mas também com a vida!
Presenciei momentos singulares em que a psicóloga ajudava os pacientes a revisarem a vida, para depois se desligarem dela. Me encantei com esse processo e, por mais mórbido que pareça, passei a ver, por meio da morte, outros sentidos da vida! Hoje, na tentativa de fugir do encontro com o coronavírus, relembro desses momentos.
Estamos muito angustiados pelo recado da finitude. A alma torce e o coração chega a vir no pescoço com a possibilidade do término da nossa existência ou de quem amamos. Mas, por outro lado, somos estimulados a repensar sobre o verdadeiro propósito da vida. De repente, como se estivéssemos de saída, tornou-se urgente pedir desculpas, resgatar relacionamentos, se declarar. Até o trabalho passou a ser revisto em termos de quantidade e qualidade.
Abrimos o armário e descobrimos que, pra um corpo só, não é necessário tantas roupas, mas o que vale é vestir a vida de alegrias e boas escolhas. Após esse olhar cuidadoso, alguns objetos ganharam sentidos e foram resinificados, enquanto percebemos que outros são totalmente dispensáveis e descartáveis. Tudo isso tem acontecido porque estamos experimentando o fio tênue entre a vida e a morte. Sabe aquele filme ou livro que só é entendido no final? Assim é a nossa vida que ganha luz e clareza quando é analisada como se fosse a última cena. Mas, nós não sabemos a hora de ir. Nosso Pai amado é quem controla nossa chegada e partida.
Então, podemos HOJE tentar entender todo o filme e desfrutar, de forma privilegiada, de muitas cenas que ainda desejamos viver, escolhendo quem queremos que participe delas! É a morte nos despertando para a vida, algo tão sublime que meus pacientes me ensinaram há tantos anos atrás. Desejo assim, que a morte não nos assuste, mas que se apresente junto ao renascimento e a metamorfose de sentidos para uma vida plena. Desejo ainda que a impermanência do existir nos permita fluir o infinito de Deus para o enlace de tudo aquilo que realmente importa!
