Rachel Loiola com o filho Matheus. Foto: Arquivo Pessoal
O corpo doía. Deitada na cama, abri os olhos antes do sol dar boas vindas. As costas reclamavam suavemente. Diferente do cansaço pelo trabalho intenso, o corpo comunicava um desconforto por tanto sentar e deitar, posições adotadas nos últimos dias repetidamente. Deito para ver filmes, para dormir; sento para ler, escrever, estudar.
Deito para descansar do descanso. Sento para matar saudades pelo telefone. Deito para ativar as lembranças dos meus afetos. Sento para compreender os sentimentos que me rodeiam. Deito para apreciar o tempo. Sento para refletir sobre os acontecimentos diários. Deito para tentar entender os rumos que estão por vir. Sento para tentar espantar o desânimo que, às vezes, toma conta.
Levanto e caminho lentamente até minha varanda, aproveitando o tempo e as sensações do meu corpo ereto. Lá costumo me revigorar com minha fotossíntese diária. Lá encontro minhas amigas flores que sempre me animam com suas cores e pétalas. Encontrei as flores, mas não o sol. Hoje ele tá de folga, pensei. O céu está cinzento, triste. Do lado de fora a cidade continua adormecida. O silêncio me permite escutar meu estômago roncando.
Opto por deitar na minha hamaca que sempre me acolhe tão bem. Tento achar uma posição confortável. Não encontro. Busco o travesseiro. Não resolve. Deve ser o frio? Vou atrás do cobertor. Não resolve. Hoje não encontro a habitual harmonia. Mas insisto, afinal, sempre formamos uma dupla bem sincronizada, a hamaca e eu! Adormeço. Acordo com a claridade, mas sem meu parceiro sol. Parece que ele não vai aparecer mesmo hoje. Desconfio que também esteja com medo do vírus? Quem não está?
Desisto da hamaca e vou para o sofá assistir TV. As costas ainda reclamam e o corpo está crocante, estalando a cada movimento. Continuo buscando posição confortável. Distraída percebo um movimento na casa. Pelo corredor, meu filho se aproxima com cara de sono. Em silêncio me abraça e se acomoda. Abraçada a ele, meu corpo cessa a reclamação. Após alguns instantes juntos e colados, Matheus diz: “Mãe, hoje eu vou preparar o café da manhã pra você. Hoje eu quero cuidar de você!” Meu coração sorri. O carinho de hoje substituiu o sol e fez minha fotossíntese diária. Meu sol, minha alegria e esperança estavam ali na minha frente, reunidos numa pessoinha linda, radiante e com cabelos fios de luz: meu filho! Permiti ao dia um novo começo.
