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Sergio Moro não é mais o ministro da Justiça e Segurança Pública. Nesta sexta-feira (24), em entrevista coletiva, anunciou sua demissão do cargo no governo do presidente Jair Bolsonaro. A saída do ex-ministro está diretamente ligada com a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, publicada nesta manhã, pelo presidente Jair Bolsonaro.
“Vou começar a empacotar as coisas e encaminhar a minha carta de demissão. Não tenho condições de continuar, sem ter condições de preservar a autonomia da PF para realizar os seus trabalhos, ou sendo forçados a aceitar uma interferência polícia”, disse após 40min de entrevista.
“Tive até outras divergências com o presidente, muitas convergências, recebi apoio do presidente em várias situações. De todo o modo, o meu entendimento foi que eu não tinha como aceitar essa substituição. Há uma questão envolvida da minha biografia de respeito à lei, à impessoalidade. Eu não me senti confortável, tenho que preservar o compromisso que assumi inicialmente com o presidente, firme no combate à corrupção no pais e temos que garantir o respeito à lei e a autonomia da Polícia Federal. O presidente não me quer no cargo”, disse.
“A exoneração, fiquei sabendo pelo Diário Oficial. Eu não assinei esse decreto e em nenhum momento o diretor-geral fez pedido formal de exoneração. Eu, sinceramente, fui surpreendido. Achei que foi ofensivo”.
“Ontem (quinta), conversei com o presidente, falei que seria uma interferência política e ele disse que seria mesmo”, afirmou.
“Fiz uma indicação ao presidente, mas não fui atendido. Foi ventilado o nome de um delegado que passou muito tempo no Congresso e que ainda está na ativa, mas o grande problema é que não são é tanto quem colocar, mas porque colocar, e fazer a interferência política no âmbito da Polícia Federal”, disse Moro.
“O presidente me disse mais de uma vez, expressamente, que ele queria ter uma pessoa do contato pessoal dele, que ele pudesse ligar, colher informações, relatórios de inteligencia, seja o diretor, seja o superintendente, e não é o papel da polícia federal prestar esse tipo de informação, as investigações têm que ser preservadas”, ressaltou.
“Eu queria lamentar esse evento, na data de hoje, em plena pandemia. Infelizmente, temos que realizar esse evento”, disse, logo na chegada. Depois, começou a relembrar o trabalho realizado como juiz que esteve à frente na Operação Lava Jato.
Antes de oficializar a saída, falou sobre a importância da autonomia das investigações da Polícia Federal e lembrou o convite feito por Bolsonaro em 2018 para assumir o ministério e falou sobre o trabalho realizado por ele no cargo. “Teríamos um compromisso com combate à corrupção, crime organizado e à criminalidade violenta. Inclusive, foi me prometido na ocasião carta branca para nomear todos os assessores, inclusive desses órgãos, como Polícia Rodoviária Federal e a própria Polícia Federal”, afirmou ele, que também desmentiu interesse de assumir cargo no STF (Supremo Tribunal Federal).
“Foi colocado equivocadamente que eu teria assumido o ministério para pleitear depois um cargo no STF. Isso não é da minha natureza. Fui criticado, entendo isso, mas minha ideia era formular políticas públicas de aprofundar o combate à corrupção e combater a criminalidade. Tem uma condição que eu não revelei até agora, mas quando eu estava com 22 anos de magistratura, perdi essa previdência com essa saída e que se algo me acontecesse, que minha família não ficasse desamparada, sem uma proteção. Foi minha única condição específica”, disse.
Moro afirmou que Bolsonaro havia concordado com as condições pedidas por Sergio Moro. “Dentro do ministério, a palavra tem sido integração. Atuamos muito próximos dos conselhos de segurança estadual e até municipal. Trabalhamos duro contra a criminalidade. Não houve um combate tão grande à criminalidade como houve neste governo”.
O ex-ministro também ressaltou que, desde o ano passado, Bolsonaro estava insistindo pela troca do comando da PF. “Em todo esse período, tive apoio do presidente Jair Bolsonaro em vários desses projetos, outros nem tanto. A partir do segundo semestre do ano passado passou a haver uma insistência do presidente para troca do comando da Polícia Federal e, sinceramente, não tinha sentido fazer essa substituição”, disse.
“Não teria problema em trocar, mas precisava de uma causa, um erro grave, um motivo técnico. Mas o trabalho dele era bem feito, fez várias desses operações importantes. O grande problema de trocar era uma violação de uma promessa que havia sido feito e que haveria uma interferência política na Polícia Federal e isso abala o trabalho”, ressalta Moro, lembrando que nem durante a Operação Lava Jato houve interferência dos governos anteriores.
“Infelizmente é um caminho sem volta, mas quando assumi eu sabia dos riscos. Vou descansar um pouco. Nestes 22 anos, foram muito trabalho, em especial na Operação Lava Jato. Independente de onde eu esteja, eu sempre vou estar à disposição do país para ajudar, tanto neste período de pandemia, como em outras atitudes, mas sempre respeitando o mandamento do Ministério de Justiça e Segurança Pública, que é fazer a coisa certa”, concluiu o ex-juiz, antes de sair sob aplausos.
Ex-diretor geral
Moro também disse que o ex-diretor-geral da PF não queria sair do cargo. “É uma verdade, mas em partes, pois esse cargo é o auge na carreira de um delegado da Polícia Federal”, disse Sergio Moro.
