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O tempo está seco, mas meus olhos insistem em ficar úmidos. A sensibilidade à flor da pele me lembra minha humanidade, testa meus limites e me indica que, às vezes, um passo pra trás é uma boa opção. Em tempos de tantas incertezas, onde o medo mora lá fora, não há como resistir o tempo todo. É necessário pedir pausa para um respiro, para um aconchego, para uma xícara de chá.
Os dias continuam lindos, o sol ainda brilha, os botões de rosa permanecem se abrindo em flores. Muitas coisas pararam, mas a natureza continua exuberante no seu existir! Busco conforto nela, mas ainda assim alguns fragmentos líquidos de tristeza escorrem pela minha face. Lembranças da liberdade do ir e vir sem medo, dos encontros com a família. Saudade. Palavra que comprime a garganta, faz bolhas no coração e, às vezes, nos racha por dentro.
Mas, sou resiliente, limpo o rosto e busco nocautear um pouco minha dor. Busco refúgio nos livros que me transportam para outros tempos, outros mundos. Nas histórias que leio sou criança, homem, mulher, sou rica e pobre, sou tudo ao mesmo tempo. Dou a mão a vários personagens e me permito ir longe, para anestesiar a dor do presente e ganhar forças para continuar. Nem sempre dá pra fugir e, algumas vezes, somos atraídos como um ímã para o que lateja nossa alma.
Leio Drumond e ele me conta em uma de suas poesias que “não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim”. Vou até Rubem Alves, meu amigo querido, que de tão leve me faz voar em seus contos. Hoje, ele cutuca minha ferida e fala que a saudade é nossa alma dizendo para onde ela quer voltar. Melhor mesmo é ir para os clássicos, livros que tenho amado ler. Eles me surpreendem por abordarem temas tão atuais!
É curioso como os problemas da humanidade não mudam, são sempre os mesmos ao longo de gerações e gerações. Distraída na viagem à casa que fica lá no alto do “Morro dos Ventos Uivantes” meu coração diminui suas batidas, minha respiração serena. Descubro que a CALMA é nossa ALMA fortificada, talvez com vitamina C.
Volto a pensar de forma mais tranquila e centrada na saudade. Recebo pelo celular mensagem enviada pela minha mãe, uma das razões de tanta saudade. Ela envia fotos de flores e do pé de pequi, meu lugar favorito para uma boa xícara de café. Alegro-me por nós duas amarmos tanto as flores e a natureza!
As fotos me relembram Drumond. Ele tá certo, os poetas sempre estão! Não há ausência, minha mãe está em mim e eu estou nela. Estamos conectadas: dela eu herdei o desejo pela leitura, a paixão pelo belo, o sorriso dos olhos. Nossas histórias estão entrelaçadas numa trama sem fim. Nesse transporte sentimental causado pela saudade, me vejo metade lembrança. A outra metade espera e anseia por dias melhores.
