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A dualidade nos visita em alguns momentos de um jeito especial. Muitas vezes precisamos dos opostos para compreender a beleza das extremidades e a importância do ter e do não ter. A noite é aplaudida com seus luares, mas se permanecesse o dia inteiro não teria a mesma graça. Da mesma forma, a intensidade do calor do sol não é suportável por muito tempo.
Nesses dias de isolamento social e confinamento em casa temos tido a oportunidade de lidar com os extremos. Nietzsche diz que tudo é precioso para aquele que foi, por muito tempo, privado de tudo. Concordamos e hoje, experimentamos! A brisa que sopra quando se está ao ar livre acaricia a nossa pele de um jeito único. Não achar vaga na frente do banco e ter que andar um pouco mais tem um valor incrível e, até de gratidão, por favorecer um caminhar sereno. O encontro presencial, olho no olho, ganha ares de superioridade diante do WhatsApp.
Assistir a um filme no cinema diante da super tela e cercado de pessoas que sentem, suspiram com você, tem um encanto mágico em relação à nossa sala de estar. Estar diante de uma sala cheia de alunos ávidos por aprender supera qualquer “live”. O que dizer então dos abraços que não foram dados na família; no soprar ao pé do ouvido um “eu te amo” a quem está distante; em comer, aquela comida especial, feita com carinho pela avó; no café com as amigas num fim de tarde? A privação valoriza as delicadezas da vida e reforça a saudade!
No exercício da Fonoaudiologia, relembro de momentos nos quais a voz tem um valor inimaginável quando é restabelecida após ser perdida, no som que volta a ser escutado após o uso de um aparelho auditivo, no prazer da deglutição por via oral após dias sendo feita por sondas e na respiração que, ainda que ofegante, volta a acontecer sem a ajuda de máquinas. Tão simples é falar, ouvir, deglutir e respirar que nem percebemos o privilégio que nos é concedido todos os dias de nossas vidas!
Que alcemos os corações com palavras cuidadosamente selecionadas para serem vocalizadas. Que nossos ouvidos se abram para os mais belos sons que estão ao nosso redor. Que respiremos fundo quando a ansiedade vier, mas, principalmente, para inspirar gratidão pelo sopro da vida entrando nos nossos pulmões!
