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Acordávamos diariamente com a agenda cheia de compromissos. O banho era rápido, a comida apenas escorregava boca abaixo. Dirigíamos escutando áudio de mensagens ou as últimas noticias do dia. Trabalhávamos e, nos intervalos, respondíamos e-mails, milhares de mensagens no WhastApp. Buscávamos filhos na escola, almoçávamos com os minutos contados, de novo respondíamos as mensagens de todos os canais possíveis: e-mails, Instagram, Linkedin, Facebook, Messenger.
Passávamos no supermercado, ajudávamos nas tarefas escolares dos filhos, preparávamos aulas, reuniões, relatórios, postagens para redes sociais. Marcávamos reuniões de trabalho, apresentávamos nossos serviços, agendávamos consultas médicas e odontológicas, praticávamos atividades físicas e, no fim do dia, conversávamos brevemente com nossos familiares. O “boa noite” encerrava nosso dia que já nos esperava ansioso pelo cumprimento de novos compromissos. De repente, tudo virou de cabeça pra baixo. Fomos obrigados a parar. A desaceleração nos permitiu ler um livro adiado, a encerrar uma série, a ligar para um amigo distante e a perceber o bigodinho que já nascia acima do lábio superior do filho adolescente. Percebemos necessidade de arrumação em alguns cômodos, armários e até passamos a notar os insetinhos dos lustres da casa que precisavam ser retirados! Dentro de nossos lares sentimos que nossas casas se transformaram de dormitórios de passagem a proteção diária.
A pausa nos fez experimentar sensações que nos apresentaram novos significados da nossa existência, das nossas relações. Mas, como somos a “sociedade do cansaço”, (nome do livro do professor e filósofo sul-coreano Byung-Chui Han), temos uma irresistível tendência a criar novas rotinas voltadas para uma produção desenfreada. Além dos cuidados com a casa, com a família, com o pagamento das contas (elas continuam chegando sem medo do vírus!) precisamos aproveitar ao máximo o tempo! Afinal, ter tempo livre é coisa para os fracos, o tédio é entediante e precisamos aproveitar a quarentena para produzir, fazer e acontecer! Bora aprender tudo por meio das lives, aprender a meditar, a fazer novas receitas, a falar novos idiomas, terminar as teses e monografias, finalizar aquele projeto que nunca acabamos, reinventar a roda e exercitar na sala.
Mas… e se eu estiver com tanto medo do que tá acontecendo lá fora e não quiser fazer nada disso? E se eu precisar dormir mais um pouco e ficar com vontade de fazer as pazes com o “à toa?” E se eu quiser chorar de saudades porque sinto falta dos abraços na família e dos encontros com os amigos? E se eu estiver muito sensível porque sinto as dores do mundo? Parabéns! Talvez você consiga ganhar no final da quarentena o certificado do que é Ser Humano! Bem-vindos sentimentos, podem entrar, esta casa também é sua! Não tenhamos medo das dores, carências, irritações, explosões e choros descontrolados. As redes sociais não mostram essa realidade, mas ela está presente em grande parte dos lares.
É tempo de sentir, de acolher nossas sensações, nossos medos e inseguranças. Não entre em guerra com sua fragilidade, pois ela te apresenta um lado importante sobre você! Aceitar nossa vulnerabilidade é um ato de coragem! Aproveite que está em casa, lugar que não é necessário o uso de máscaras e seja inteiramente você! Não há regras ou prescrições para o sentir. Apenas sinta e viva os seus dias conforme lhe for possível. Quem sabe, após essa pandemia, passemos de uma sociedade hiper produtiva para uma sociedade atenta e consciente dos sentidos do existir?
