
O debate entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), na noite de domingo, deixou a impressão de que o país havia sido convocado para assistir a uma briga cuja organização esquecera de reservar espaço suficiente para os seus problemas, enquanto acusações envolvendo familiares, provocações e respostas atravessadas consumiam uma oportunidade preciosa de esclarecer o eleitor. Propostas apareceram, mas receberam um tratamento superficial diante da energia empregada para atingir o adversário, numa inversão que ajuda a explicar o cansaço de quem esperava terminar a noite sabendo mais sobre o próximo governo.
A imagem do ringue também ajuda a compreender a dimensão corporal desse confronto, porque um debate televisionado acontece tanto nas palavras quanto na maneira como os candidatos ocupam o espaço, disputam o enquadramento e reagem enquanto o outro fala. A comparação com o encontro entre Donald Trump e Hillary Clinton, em 2016, é notória e permite uma leitura sobre intimidação: circular atrás do oponente pode deslocar a atenção do público e submeter quem está falando a uma presença incômoda, transformando o momento de exposição de ideias numa disputa pelo controle da cena. Foi exatamente a postura de Flávio Bolsonaro.
Essa é uma interpretação política do comportamento, sem que seja possível demonstrar, apenas pelos gestos, quanto houve de preparação ou de improviso. Ainda assim, o efeito merece atenção, pois permanecer no campo visual durante a fala alheia pode prolongar a presença de um candidato na tela e produzir uma impressão de domínio, especialmente quando a movimentação acompanha um discurso agressivo. O espectador passa a observar a aproximação, o desconforto e a reação, enquanto o conteúdo da resposta perde importância.
É nesse sentido que a postura de Flávio pode ser lida como parte do empobrecimento do encontro, com a tentativa de impor presença sobrepondo-se à obrigação de apresentar consistência. Uma candidatura à Presidência precisa demonstrar capacidade para enfrentar perguntas, sustentar escolhas e explicar consequências, e nenhum deslocamento pelo estúdio resolve a ausência de profundidade numa resposta.
Na saúde, a promessa de levar ao SUS um “padrão Einstein” ilustra a distância entre a eficiência de uma expressão publicitária e a complexidade de uma política pública, assim como as propostas de renegociação de dívidas exigiam um exame mais cuidadoso de custos e execução. Do outro lado, Lula defendeu realizações econômicas e políticas de renda e crédito, mas o confronto deixou pouco espaço para avaliar os limites dessas iniciativas e o que seria feito de diferente num novo mandato.
Lula tinha uma responsabilidade adicional, decorrente da experiência e do cargo que ocupa, de conduzir a discussão para o terreno em que o eleitor pudesse confrontar resultados, dificuldades e compromissos. Seu histórico oferece elementos para esse debate, mas também aumenta a obrigação de responder pelo que permanece insuficiente, porque a lembrança de conquistas anteriores precisa conversar com a vida de quem continua esperando atendimento, renda e segurança.
Ao aceitar sucessivamente o ritmo das provocações, o presidente também contribuiu para que a conversa permanecesse abaixo do necessário. Responder a uma acusação é legítimo, assim como cobrar esclarecimentos do adversário, mas uma candidatura experiente precisa encontrar meios de impedir que toda a sua participação seja organizada pelo ataque que acabou de receber.
Flávio, por sua vez, precisava demonstrar que possui um projeto capaz de sobreviver ao encerramento da campanha, quando a exploração do antipetismo já não bastaria para resolver uma dificuldade administrativa. Criticar o governo permite identificar problemas, mas a credibilidade de quem pretende substituí-lo depende da qualidade das soluções que consegue defender sob questionamento.
A cobrança sobre corrupção tem lugar indispensável num debate presidencial, desde que produza esclarecimento e preserve a distinção entre suspeita, prova e responsabilidade. Quando a acusação serve principalmente para provocar outra acusação, o público recebe um inventário de conflitos e pouca condição de julgá-los, enquanto as campanhas recolhem os trechos mais convenientes para anunciar a própria vitória.
O pior debate é aquele em que os candidatos saem abastecidos de material eleitoral e o cidadão continua sem as respostas pelas quais dedicou seu tempo à transmissão. Na Band, o ringue ocupou espaço demais, e o Brasil terminou a noite com a tarefa de procurar, entre os golpes, alguma explicação consistente sobre o futuro.
Fabrício Correia é escritor, historiador e analista político. Integra a Comissão de Tendências da ANER – Associação Nacional de Editores de Revistas.