
Há personagens que entram para a história pela porta da frente. Outros, pela força das circunstâncias. Luiz Inácio Lula da Silva entrou pelas portas das fábricas do ABC paulista e, de lá, caminhou até o Palácio do Planalto.
Não foi pouca coisa. O metalúrgico tornou-se presidente, referência internacional e personagem incontornável da história política brasileira. Construiu um partido, mobilizou multidões, venceu adversários e sobreviveu a derrotas que teriam encerrado outras biografias.
Mas há uma curiosidade nessa trajetória quase monárquica: o rei não conseguiu formar herdeiros.
Tentativas não faltaram. Dilma Rousseff recebeu a unção política e chegou à Presidência. Fernando Haddad foi apresentado como alternativa à continuidade do projeto. Guilherme Boulos surgiu como expectativa de renovação no campo progressista. Outros nomes circularam pelos corredores das possibilidades.
Nenhum, porém, conseguiu libertar-se da gigantesca sombra do fundador.
A história parece revelar que o PT aprendeu a eleger Lula, mas não necessariamente a existir eleitoralmente sem ele.
A composição com Geraldo Alckmin acrescentou outro capítulo a esse curioso idílio. O antigo adversário, representante de uma tradição política combatida durante décadas pelo petismo, converteu-se em companheiro de chapa.
A aliança cumpriu sua função eleitoral, mas deixou uma pergunta que permanece sem resposta: teria sido uma demonstração de amplitude política ou a confissão de que o partido já não encontrava, dentro de seus próprios quadros, os instrumentos necessários para sustentar sozinho seu projeto de poder?
Para parcelas da militância histórica, a aproximação exigiu engolir convicções que, durante anos, alimentaram discursos, campanhas e antagonismos.
O pragmatismo venceu a coerência partidária. Pelo menos naquela fotografia eleitoral.
E assim chegamos ao paradoxo: quanto maior se tornou Lula, menor parece ter ficado o espaço para o nascimento de outro Lula.
Talvez esse seja o maior desafio de uma liderança carismática: compreender que seu legado não pode depender eternamente de sua presença.
Afinal, formar seguidores é relativamente simples para quem possui carisma. Formar sucessores exige uma virtude mais rara: admitir que alguém poderá ocupar o seu lugar.
O metalúrgico fez-se rei. Construiu seu reino, conquistou súditos, enfrentou adversários e atravessou gerações.
Mas, ao olhar para a linha sucessória, encontra mais expectativas do que herdeiros.
E a velha pergunta, que atravessa monarquias, repúblicas e partidos políticos, continua atual:
Post regem, quis?
Pedro Luiz Dias é bacharel em Ciências da Comunicação, com especialização em Relações Públicas, pela Universidade Braz Cubas; em Ciências Jurídicas, pela Universidade do Vale do Paraíba; e em Teologia, pela Faculdade de São Bento. Pesquisador em Teologia e Mariologia, possui MBA em Marketing pela Fundação Getulio Vargas (FGV). É colaborador de publicações do Estado de São Paulo e integra a coordenação da Família Leiga Redentorista.