
Sobram exemplos dos grandes livros que, não contentes em encantar pelas páginas, em algum momento tiveram suas histórias também contadas pelas telas. O Senhor dos Anéis, Harry Potter, O Silêncio dos Inocentes, Ainda Estou Aqui. A lista é bastante longa e ameaça não chegar ao fim.
É exatamente este tipo de obra que a Academia Joseense de Letras, com seu novo projeto “O Livro Virou Filme”, deseja usar para aproximar os escritores locais do cinema e os cineastas dos livros.
Neste sábado (12), no Kinoplex Diamante, a Academia lança oficialmente o projeto com uma sessão gratuita do longa brasileiro “O Grande Circo Místico” (2018), dirigido por Cacá Diegues, inspirado pelo poema homônimo de Jorge Lima (leia mais abaixo). O filme narra a trajetória de cinco gerações de uma família de artistas circenses ao longo de um século.
A AJL pretende aproximar literatura e audiovisual em sessões mensais de filmes inspirados em livros, poemas, peças e outras obras literárias, acompanhados de encontros e discussões sobre o processo de adaptação para o cinema. “O nosso objetivo maior é trabalhar com os escritores regionais para que as suas ideias dialoguem com os roteiros audiovisuais e fortaleçam a ideia de São José Film Commission, não só com locações, mas com produção intelectual”, explicou o presidente da Academia, Fabrício Correia.
Durante a programação, a presidente da Academia Brasileira de Cinema, Renata Almeida Magalhães, receberá da Academia Joseense de Letras a Medalha Cassiano Ricardo, em reconhecimento à sua contribuição ao cinema e à preservação da cultura audiovisual brasileira. Interessados no evento devem confirmar seus lugares pelo WhatsApp (12) 98820-2010 até as 18h desta sexta-feira (11).
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O Grande Circo Místico (Jorge Lima)
O médico de câmara da imperatriz Teresa – Frederico Knieps –
resolveu que seu filho também fosse médico,
mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,
com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,
de que nasceram Marie e Oto.
E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora
que tinha no ventre um santo tatuado.
A filha de Lily Braun – a tatuada no ventre
quis entrar para um convento,
mas Oto Frederico Knieps não atendeu,
e Margarete continuou a dinastia do circo
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Então, Margarete tatuou o corpo
sofrendo muito por amor de Deus,
pois gravou em sua pele rósea
a Via-Sacra do Senhor dos Passos.
E nenhum tigre a ofendeu jamais;
e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,
quando ela entrava nua pela jaula adentro,
chorava como um recém-nascido.
Seu esposo – o trapezista Ludwig – nunca mais a pôde amar,
pois as gravuras sagradas afastavam
a pele dela o desejo dele.
Então, o boxeur Rudolf que era ateu
e era homem fera derrubou Margarete e a violou.
Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.
Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do
Grande Circo Knieps.
Mas o maior milagre são as suas virgindades
em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;
são as suas levitações que a plateia pensa ser truque;
é a sua pureza em que ninguém acredita;
são as suas mágicas em que os simples dizem que há o diabo;
mas as crianças creem nelas, são seus fiéis, seus amigos,
seus devotos.
Marie e Helene se apresentam nuas,
dançam no arame e deslocam de tal forma os membros
que parece que os membros não são delas.
A plateia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.
Marie e Helene se repartem todas,
se distribuem pelos homens cínicos,
mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.
E quando atiram os membros para a visão dos homens,
atiram as almas para a visão de Deus.
Com a verdadeira história do grande circo Knieps
muito pouco se tem ocupado a imprensa.
O poema “O Grande Circo Místico”, de Jorge de Lima, foi publicado no livro “A Túnica Inconsútil“, lançado em 1938.