
A história de transformação de São José dos Campos, de estância sanatorial a polo de inovação e da indústria aeroespacial, ganha novo olhar no livro “A Primeira Voz da Cidade”, do jornalista e escritor Ricardo Santos.
Publicado pela Somos Editora, o livro mergulha nas décadas de 1930 e 1940 para mostrar como a cidade começou a mudar de rumo em meio a um período decisivo do país. O fio condutor da narrativa é a P.L.1, emissora pioneira do rádio joseense, criada em 1937 e operada por um sistema de alto-falantes instalado na região central. Mais do que entreter, a estação ajudava a informar a população em uma época marcada pela censura do Estado Novo, durante o governo de Getúlio Vargas.
A obra será lançada nesta quinta-feira (26), às 19h, no Restaurante Amicci, na Avenida Anchieta, em São José dos Campos. Os exemplares podem ser comprados pela internet por R$ 69,90 (retirada no evento ou na editora) ou R$ 87 (envio pelos Correios).
O livro
Ao acompanhar a trajetória da emissora, o livro também revela bastidores pouco conhecidos do desenvolvimento urbano, econômico, tecnológico e cultural de São José. A obra mostra como a cidade, que até então era conhecida principalmente pelo tratamento da tuberculose, passou a ser vista como estratégica para receber investimentos e preparar o terreno para um futuro ligado à aviação e à pesquisa.
Segundo Ricardo Santos, a virada começou a se desenhar em meados da década de 1930, quando São José passou a receber recursos públicos e a reorganizar sua estrutura urbana. “Enquanto a cidade recebia recursos e preparava bases sólidas para se tornar um polo tecnológico, a emissora de alto-falantes exercia a função social de entreter e informar a população”, afirma o autor.
O contexto histórico ajuda a explicar essa mudança. Em 1935, um decreto estadual transformou São José dos Campos em estância climática e hidromineral. A partir disso, a cidade passou a ser administrada por prefeitos sanitários nomeados pelo Estado, com a missão de aplicar verbas em obras de infraestrutura, higiene pública, urbanização e modernização. Esse movimento abriu espaço para novos projetos educacionais, instalação de indústrias e criação de um ambiente favorável ao desenvolvimento do conhecimento aeronáutico.
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O livro mostra que, poucos anos depois, São José já era considerada uma área estratégica para receber um campo de aviação. Em 1939, o município obteve apoio do então Ministério da Aviação, que cedeu equipamentos para a construção da pista de pouso. Já em 1942, em meio à Segunda Guerra Mundial, o aeroclube da cidade colocou seus aviões à disposição para a vigilância aérea do litoral norte paulista, após o Brasil entrar oficialmente no conflito.

A localização de São José também pesou nessa escolha. Situada no eixo Rio-São Paulo, com relevo favorável e cercada pelas serras do Mar e da Mantiqueira, a cidade era vista como ideal para projetos ligados à aviação. Essa vocação já havia sido apontada décadas antes por Alberto Santos-Dumont, que, em um livro publicado em 1918, destacou as condições topográficas e atmosféricas da região como adequadas para a instalação de uma escola de aviação.
A narrativa avança até 1945, quando o Ministério da Aeronáutica e a prefeitura chegaram a um acordo para instalar o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em um terreno próximo ao campo de aviação. No ano seguinte, começaram as obras de preparação da área que receberia o projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer e daria origem ao Centro Técnico de Aeronáutica (CTA), marco definitivo da vocação tecnológica da cidade.
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Nesse mesmo período, a equipe da P.L.1 foi transferida em grande parte para a recém-inaugurada Rádio Clube de São José dos Campos, a primeira emissora oficial da cidade. A nova rádio já ajudava a consolidar uma imagem tecnológica, voltada à modernidade e inovação, que se tornaria símbolo do município nas décadas seguintes.