
Alunos do curso de engenharia da computação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, apresentaram nesta quarta-feira (11), em sala de aula, um projeto de jogo de computador que seria inspirado no caso do financista americano Jeffrey Epstein, acusado de comandar um esquema de exploração sexual de menores.
No game, a personagem principal é uma adolescente de 15 anos sequestrada e levada a uma ilha, de onde precisa tentar fugir. O episódio foi revelado pelo portal g1, em reportagem da jornalista Poliana Casemiro.
Como funcionava o jogo
De acordo com a apuração, o trabalho foi apresentado por um grupo formado apenas por homens durante uma aula da graduação. O jogo, chamado “A Fuga de Sid” — nome que faz referência a um aluno do instituto —, simulava a história de uma adolescente mantida em uma ilha por seis homens.
Na dinâmica proposta, a personagem teria que encontrar um barco e combustível para escapar do local, evitando os seis vilões. Cada um dos personagens teria uma característica específica que deveria ser observada pela protagonista.
Em um dos exemplos apresentados, um dos vilões não gostava de pessoas que riam, o que exigiria que a personagem adaptasse suas expressões para não ser descoberta.
O que diz a FAB
O caso veio à tona após prints da apresentação circularem em um grupo de WhatsApp com alunos e ex-alunos do ITA. O g1 conversou com um estudante que estava na sala no momento da atividade. Segundo ele, o trabalho foi apresentado até o fim, sem interrupção da professora.
Em nota, a Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), informou que a atividade ocorreu durante uma aula do curso de engenharia de computação do ITA que propõe, entre os exercícios da disciplina, a criação de jogos interativos para o desenvolvimento de habilidades de programação e estruturação de código.
Segundo a FAB, os alunos apresentavam apenas propostas iniciais de temas para projetos que seriam desenvolvidos ao longo do bimestre. A instituição afirmou que o tema mencionado na reportagem foi imediatamente descartado após ser identificado como inapropriado.
Ainda de acordo com a nota, o caso está sendo tratado “de forma célere e responsável” dentro das normas da instituição. O ITA também informou que ações de conscientização serão reforçadas junto aos estudantes por meio do Grupo de Trabalho de Equidade de Gênero e de outros órgãos administrativos e acadêmicos do instituto.
“O ITA reafirma seu compromisso com a formação técnica e ética de seus estudantes e com a promoção de um ambiente acadêmico seguro, pautado pelo respeito, pela responsabilidade e pela integridade”, finalizou a nota.
Associação de ex-alunos repudiou episódio
Após a divulgação do caso, a Associação dos Engenheiros do ITA (AEITA), formada por ex-alunos do instituto, divulgou uma nota de repúdio.
A entidade afirmou que é inaceitável tratar com banalidade a violência sexual em um ambiente acadêmico e disse que episódios como esse contribuem para a normalização de abusos contra meninas.
A associação também manifestou solidariedade a estudantes que demonstraram indignação com o caso e defendeu que o episódio seja apurado com seriedade e transparência.
“A AEITA solidariza-se com os alunos e alunas que expressaram sua indignação e defende que o caso seja objeto de apuração cuidadosa, com as devidas providências, bem como o fortalecimento de protocolos de prevenção à violência de gênero“, publicou a associação pelo Instagram.
Entre as medidas sugeridas pela AEITA estão a responsabilização compatível com a gravidade dos fatos e o fortalecimento de protocolos de prevenção a assédio, discriminação e violência de gênero dentro da instituição.
Quem foi Jeffrey Epstein
Jeffrey Epstein foi um financista americano que se tornou conhecido internacionalmente após investigações apontarem que ele comandava um esquema de abuso e exploração sexual de meninas menores de idade.
Segundo autoridades, adolescentes — algumas com apenas 14 anos — eram atraídas para encontros em propriedades ligadas a ele.
Epstein foi preso em 2019 e acusado formalmente de tráfico sexual de menores nos Estados Unidos. Ele morreu na prisão no mesmo ano, enquanto aguardava julgamento.