
Num dia, o debate é sobre a ideologia das sandálias Havaianas; no outro, o tema é a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos e o sequestro do ditador Nicolás Maduro. Tudo com a profundidade de uma poça d’água.
É a vida em ritmo de terra em transe, mas, sem a lucidez de Glauber Rocha. Com um calor rachar e com todo mundo suando mais que tampa de chaleira, a transição de 2025 para 2026 foi em ritmo alucinante, mostrando que a possibilidade de baixar a fervura neste ano novo é baixa. Aliás, mais que baixa, baixíssima.
Das Havaianas, o embate direita-esquerda emendou com o ataque os Estados Unidos a Caracas, feito sob a alegação de combater o narcotráfico, mas, com o próprio presidente Donald Trump assumindo, sem meios termos, o interesse real no petróleo do país latino-americano e no xadrez geopolítico da América. Da ação de Trump às lives e vídeos sobre o assunto foi um pulo.
De férias nos Estados Unidos, Tarcísio de Freitas (Republicanos) foi rápido e rasteiro. “Uma ditadura não cai da noite para o dia. Ela corrói as instituições por dentro, pouco a pouco, e quem paga o preço mais alto é sempre a população”, postou o governador nas redes sociais, completando: “A Venezuela agora está vencendo a esquerda. Que no final do ano, o Brasil também vença.” Recado político-eleitoral direto, sem freios nem filtros. Tarcísio não foi o único.
Por aqui, Felicio Ramuth (PSD), governador em exercício, colocou mais lenha na fogueira. Na segunda-feira (5), durante agenda em Santo Amaro, na zona sul da capital paulista, Felicio comentou a crise na Venezuela e associou o PT a um suposto “Estado narcoafetivo”.
Ontem (6), o governador em exercício voltou à carga após a legenda ingressar na Justiça contra ele por declarações semelhantes. O PT acusa Felicio de calúnia e disseminação de fake news, pede a retirada imediata do conteúdo e uma indenização de R$ 30 mil.
Segundo a legenda, a liberdade de expressão não autoriza a atribuição de crimes sem comprovação a adversários políticos. Contestado, Felício manteve as afirmações. “O termo foi usado em sentido político e retórico, para criticar uma postura pública de tolerância e relativização diante do crime organizado”, disse, em nota.
A posição de Felicio não surpreende. É coerente. Há tempos, o ex-prefeito de São José dos Campos se posiciona como anti-PT, de olho em espaço político no Estado.
E agora?
Vamos aguardar os novos capítulos dessa novela. Dessa ou da próxima, quem sabe. Afinal, as eleições chegam só em outubro, Trump está de olho na Groenlândia e as Havaianas podem lançar outra campanha no Dia dos Namorados, quem sabe. Ou o “Agente Secreto” ganha o Oscar.
Motivos não faltam para agitar a rede. Culpa dos novos tempos, da ideologia fast-food, da velocidade da luz com que trocamos mensagens e expressamos opiniões. Como disse Gilberto Gil, antes longe era distante; perto, só quando dava, quando muito, ali defronte e horizonte acabava.
Hoje é tudo no vapt-vupt. Pela onda luminosa, leva o tempo de um raio… No tempo das redes e dos debate raso, a invasão da Venezuela, contra as regras internacionais e a própria Constituição dos EUA, merece aplausos sem medida de um lado e críticas do outro. Surpresa zero. Até quando?
Maduro era um ditador cruel? Com certeza. Chefe de cartela? Não se sabe. Que regime vai surgir por lá? Democracia plena? Tomara, mas não se sabe ao certo. A nova presidente, Delcy Rodriguez, segue a linha chavista. É bom para o mundo ter um “xerife”? Tem gente que acha que sim. E se a “estrela” estiver no peito da Rússia e da China?
As perguntas são muitas. Quem está interessado nas respostas?