
O caminhão não chegou.
A produção atrasou.
O contrato precisou ser renegociado às pressas.
Não foi greve. Não foi falha de sistema. Foi falta de água.
Cenas como essa, que até pouco tempo atrás pareciam exceções, começam a se repetir com uma frequência incômoda. Em diferentes regiões, setores e escalas. E é exatamente nesse ponto que o ESG deixa de ser conversa de evento e vira assunto de conselho, de diretoria e de sala de reunião. Não porque ficou bonito. Porque ficou inevitável.
Durante anos, sustentabilidade foi tratada como intenção. Relatórios bem diagramados, compromissos ambiciosos para 2030 ou 2050 e uma narrativa otimista sobre um futuro melhor. Enquanto isso, o mundo real seguia pressionando. O ESG que se desenha para 2026 nasce desse choque direto entre o discurso e a operação.
O risco climático deixou de caber em rodapé de relatório. Ele aparece no balanço, no seguro, no custo do capital e na logística. Enchentes interrompem cadeias produtivas. Secas comprometem produção. Ondas de calor afetam trabalhadores e produtividade. O clima deixou de ser tema ambiental isolado e passou a integrar estratégia, governança e gestão de risco.
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É nesse cenário que a chamada dupla materialidade deixa de ser conceito elegante e vira exigência prática. Não basta entender como o mundo afeta a empresa. É preciso assumir como a empresa afeta o mundo. Decisões sobre água, energia, território e fornecedores passam a ter impacto direto em risco, valor e reputação. ESG deixa de ser área e vira critério.
Ao mesmo tempo, cresce a sensação de confusão regulatória. IFRS, ISSB, CSRD, GRI, TCFD, TNFD. A lista assusta, mas o recado é simples: dados confiáveis, integrados e rastreáveis passam a ser ativos estratégicos. Quem não organizar isso agora vai pagar mais caro depois, seja em capital, seja em credibilidade.
Nesse ambiente, a inteligência artificial deixa de ser promessa futurista e vira ferramenta concreta. Monitorar recursos hídricos, prever eventos extremos, rastrear emissões na cadeia, reduzir desperdícios e apoiar decisões em tempo real já é realidade. Sustentabilidade começa a ser também tecnologia aplicada.
Curiosamente, enquanto tudo isso avança, cresce o greenhushing. Empresas fazem, mas preferem não falar. O medo de errar, de ser acusado ou de não atender a todos os critérios leva ao silêncio. Só que o silêncio também custa caro. Sem narrativa, perde-se confiança, espaço e valor.
Outra mudança estrutural é a centralidade da adaptação. Reduzir emissões continua essencial, mas adaptar-se aos impactos já em curso se torna prioridade. Infraestrutura resiliente, gestão da água, proteção de ecossistemas e planejamento territorial entram definitivamente no centro das decisões estratégicas.
Essa lógica se espalha pela cadeia de suprimentos. Fornecedores passam a ser avaliados não apenas por preço, mas por risco ambiental, social e climático. ESG deixa de ser interno e passa a ser sistêmico.
Cresce também a cobrança por planos de transição reais. Metas genéricas já não bastam. Investidores querem cronograma, investimento, governança e responsáveis claros. O tempo das promessas vagas ficou para trás.
Talvez a virada mais profunda seja a entrada definitiva da natureza na lógica econômica. Água, solo e biodiversidade deixam de ser pano de fundo e são tratados como ativos estratégicos. A perda da natureza vira risco econômico mensurável.
O ESG que emerge para 2026 é menos confortável. Exige escolhas difíceis, dados consistentes, coragem para priorizar e coerência entre discurso e prática. No fim das contas, nunca foi sobre moda ou ideologia. Sempre foi gestão. Boa gestão.
E sim, o papo pode até parecer chato. Cheio de siglas, métricas e decisões impopulares. Mas a conversa é séria. E necessária. Porque o custo de não decidir já está sendo pago. E tende a aumentar.