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    Cozinha sem Chef

    Entre a moradia estudantil e o chef gourmet

    Do churrasco de sete às carnes de boutique: uma história de fogo, memória e sabor
    19 de dezembro de 2025Nenhum comentário7 Minutos de Leitura
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    Entre a moradia estudantil e o chef gourmet
    (Créditos: Arquivo pessoal)

    De calouros pintados de guache e carne embrulhada em jornal às ceias com Wagyu brasileiro e cortes de nome estrangeiro, esta é a trajetória de um país — e de uma geração — que aprendeu a transformar churrasco em cultura.

    Um relato saboroso sobre o tempo, a mesa e o prazer de ver que até o boi amadureceu junto com a gente.

    Anos 80: tinta guache, rock e carne dura

    Embalados pela voz marcante de Elis Regina, a década de 1980 começava como na canção: “gente nova reunida”.

    Na faculdade, os calouros eram pintados com tintas aleatórias — os homens raspavam o cabelo, as moças ganhavam desenhos no rosto — e o churrasco era o rito de passagem.

    Os veteranos comandavam a festa: homens na grelha, moças bajuladas, cerveja, por vezes quente e vodkas de origem duvidosa.

    A carne, coitada, era o que o orçamento estudantil permitia. Picanha? Só por fotografia.

    Nosso tesouro era o churrasco de sete — carne dianteira, dura, mas fiel companheira dos finais de semana.

    “Vai fazer churrasco de acém?”, zombavam os colegas, sem imaginar que um dia o chuck roll e o shoulder steak seriam servidos em restaurantes estrelados, com nomes em inglês e preços em euros.

    Mas ninguém se importava. O importante era o som — Barão Vermelho, Legião Urbana, Paralamas, Titãs, Blitz — e a sensação de estar começando a vida. Carne de segunda, sim; mas amizade de primeira.

    Leia mais: De volta à rotina, revisitei a história e os sabores do Oriente

    Anos 90: a era do sal grosso e da picanha sonhada

    (Créditos: Arquivo pessoal)

    Com o tempo e a residência médica, o bolso ficou mais generoso — e o cardápio também.
    Picanha, contra filé e alcatra começaram a aparecer na grelha, seguidos de novos astros: maminha, fraldinha e costela (essa última, “carne da diretoria”).

    O Brasil respirava alívio econômico, o Plano Real estabilizava o país, e a classe média redescobria o prazer de comer fora.

    As churrascarias rodízio eram o auge da gastronomia popular: garçons fardados, espetos intermináveis e sal grosso como tempero universal.

    O toque gourmet ainda não existia — o que valia era quantidade, suculência e fartura.

    Foi também nessa época que o público começou a reconhecer os nomes dos cortes e a exigir o mesmo padrão em casa.

    Os açougues, antes simples balcões de fórmica e serras manuais, viraram vitrines de confiança.

    A carne passou a ser vendida em bandejas refrigeradas, com aparência de produto de luxo.
    (E, sim, muitos de nós ainda lembram de chegar em casa com a carne embrulhada em folhas de jornal — uma imagem que hoje soa tão vintage quanto um toca-fitas.)

    Anos 2000: o churrasco descobre o mundo

    A virada do milênio trouxe internet, programas culinários e chefs estrelados na TV.

    O American BBQ chegou com fumaça e paciência — o lema era low and slow.

    As influências argentina e uruguaia ensinaram o respeito ao ponto da carne e ao sabor da brasa.

    Surgiram então os mestres churrasqueiros — verdadeiros artistas do fogo e da faca: Marcos Bassi, pioneiro da maturação e dos cortes de precisão; Jimmy Ogro, José Almiro, Roberto Barcellos, entre outros, elevaram o churrasco à categoria de arte.

    Foi quando nasceu a expressão “carne de boutique”. Os açougues começaram a se parecer com lojas de vinho: balcões refrigerados, cortes embalados a vácuo, etiquetas com origem, raça, marmoreio e tempo de maturação. A carne virou assunto sério — e caro.

    A era dos cortes redescobertos e do boi melhorado

    Enquanto os chefs reinventavam os cortes, os pecuaristas brasileiros faziam sua própria revolução silenciosa.

    O tradicional gado Nelore, resistente e adaptado ao clima tropical, começou a cruzar com raças europeias, como o Angus, em busca de maior marmoreio e maciez.

    O resultado foi uma geração de carnes com textura e sabor superiores, sem perder a rusticidade que caracteriza o boi brasileiro.

    E foi justamente nesse processo que nasceu o “Wagyu brasileiro”, fruto do cruzamento do Wagyu japonês — famoso pelo marmoreio exuberante — com raças nacionais.

    (Créditos: Arquivo pessoal)

    Hoje, é possível encontrar cortes nacionais com índices de gordura intramuscular comparáveis aos melhores exemplares do Kobe japonês, produzidos em fazendas de Goiás, Mato Grosso e Paraná.

    A genética se tornou aliada da gastronomia.

    O Brasil deixou de ser apenas exportador de volume para se tornar produtor de qualidade — e, convenhamos, não é pouca coisa transformar o boi tropical em estrela internacional de churrasco.

    Da panela à grelha: os novos cortes de luxo

    Enquanto o gado melhorava, o mapa da carne se expandia.

    Estudos da Universidade de Nebraska e do USDA mostraram que partes do dianteiro — antes tidas como “de segunda” — escondiam verdadeiras joias: flat iron (do shoulder), Denver steak (do chuck roll), short rib, brisket e beef cheeks (bochecha).

    Esses cortes, antes relegados a caldos e ensopados, ganharam nome inglês, status de chef e espaço nas grelhas mais disputadas.

    E assim, o dianteiro, que já foi sinônimo de economia, virou símbolo de sofisticação e técnica.

    Leia também: Puka Puka — Entre o mar, o sabor e a curiosidade

    O porco e o frango saem da sombra

    O porco, antes condenado à mesa rural, ressurgiu glorioso:
    pork belly crocante, porchetta italiana, lombos recheados e pernil defumado viraram protagonistas das ceias de Natal.

    E o frango — ah, o frango! — finalmente teve seu dia de glória.

    Os miúdos, outrora “comida de pobre”, hoje são estrelas: coraçãozinho grelhado, moelas confitadas, fígado com cebola caramelizada.

    Os mesmos que alimentaram gerações de repúblicas universitárias agora figuram em cardápios de bistrôs e festivais gastronômicos.

    Consciência e tradição: do focinho ao rabo

    Essa revalorização da carne não veio só da moda, mas da consciência culinária e ambiental.
    Cozinhar “do focinho ao rabo” é uma forma de respeito: ao animal, à terra e à história.

    Aproveitar os cortes inteiros e os miúdos é retomar a sabedoria dos nossos avós, que não jogavam nada fora — por economia e, sem saber, por sustentabilidade.

    Hoje: a mesa que une o nobre e o popular

    (Créditos: Arquivo pessoal)

    Nas ceias e churrascos de fim de ano, tudo se mistura com harmonia:
    na grelha, o flat iron divide espaço com o brisket;
    na assadeira, o pernil compete com a porchetta;
    na frigideira, moelas e corações lembram que o sabor não mora no preço, mas no tempo e no carinho.

    Da moradia estudantil ao açougue boutique, o churrasco — assim como nós — amadureceu.

    Deixou de ser improviso de república e virou ritual de celebração, onde o que vale não é o corte, mas o encontro.

    Box de Curiosidades — Sabores da Brasa

    • “Carne de segunda”: o termo vem da antiga classificação comercial, baseada na posição do corte, não na qualidade.
    • Picanha: até os anos 70, era vendida como parte da alcatra — o nome pegou depois que os gaúchos a isolaram e transformaram em estrela.
    • Cupim: exclusivo do gado zebu (como o Nelore), antes desprezado pela gordura e hoje valorizado pela suculência.
    • Wagyu brasileiro: cruzamento do Wagyu japonês com raças nacionais, unindo marmoreio e resistência tropical — um “samba do marmoreio” que deu certo.

    Nota do autor

    Médico por profissão, cozinheiro por teimosia e agora também por profissão e cronista por necessidade de contar histórias, aprendi que a cozinha é o melhor laboratório que existe — nela se experimenta, se erra, se acerta e, de vez em quando, se brilha.

    Entre bisturis e bifes, descobri que a carne e a vida têm algo em comum: ambas amaciam com o tempo, temperadas por boas lembranças e gente por perto.

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    * A opinião dos nossos colunistas não reflete necessariamente a visão do portal spriomais.

    Dr. Sidney Sredni é neurologista, mas também tem outra paixão: a cozinha! Desde 1984, ele vem aperfeiçoando suas habilidades culinárias e técnicas em cursos, leituras e viagens. Essa jornada, que começou por necessidade, logo virou um hobby sério e parte fundamental de sua terapia pessoal.
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