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    Cozinha sem Chef

    De volta à rotina, revisitei a história e os sabores do Oriente

    Após as férias no Nordeste, Sidney Sredni tinha que reorganizar a casa e sua rotina, mas um curso de culinária árabe apareceu pela frente e mudou os planos
    13 de dezembro de 20251 comentário8 Minutos de Leitura
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    Mesa com as receitas preparadas no curso com a chef Solange Abrão (Créditos: Arquivo pessoal)

    Voltei das férias e, como sempre, a volta foi um misto de alegria e trabalho árduo. Chegar em casa trouxe uma sensação boa — afinal, é onde nos sentimos protegidos, abraçados. Mas bastou o primeiro reencontro com a cama, o chuveiro e o sofá para a realidade bater à porta: roupas para lavar, geladeira vazia, contas a pagar, a casa pedindo uma boa limpeza e o trabalho acumulado.

    Para completar, a semana de provas e entregas da faculdade. Fugir dos preços altos e da agitação do fim de ano teve seu preço — e ele veio em parcelas emocionais e domésticas.

    Como é a rotina da cozinha de um resort? Nas minhas férias, conversei com um chef em Porto de Galinhas para descobrir

    No meio desse tumulto, surgiu um convite inesperado: um curso de Culinária Árabe, num domingo, das 10h às 17h, no restaurante Sabores das Águas — Espaço Gourmet Chef Thaís Okamoto — com a chef Solange Abrão.

    Entre a pilha de roupas e a promessa de uma mesa farta, não tive dúvidas. E lá fui eu, movido pela curiosidade e por um leve sentimento de compensação pela minha ausência no evento gastronômico que aconteceu em São José dos Campos enquanto eu viajava.

    Chef conhecida nas redes sociais, com mais de 40 mil seguidores, Solange Abrão — acompanhada do marido e parceiro de aventuras culinárias, Márcio — comandou um domingo especial, cheio de aromas, histórias e risadas. Para mim, o casal é prova viva de que a cozinha também é um reencontro: começaram a trabalhar na área logo após a pandemia.

    Solange, descendente de sírios e libaneses, aprendeu os segredos da culinária árabe com a avó. Durante o isolamento, decidiu mudar de carreira e transformar o que era afeto em profissão. A ideia conquistou Márcio, que, mesmo sem formação na área, apaixonou-se pela gastronomia e hoje acompanha a esposa nas aulas e apresentações pelo Brasil.

    Durante o curso, preparei charutos, esfihas, quibes, babaganuche e outras iguarias sob a orientação precisa de Solange — sempre com o toque final impecável de Márcio. A harmonia entre técnica e amor tornou inevitável o sucesso: comi primeiro com os olhos e depois confirmei com o paladar.

    No meio da aula, participei de uma conversa deliciosa sobre a origem da esfiha. Descobri que, no Líbano — e praticamente em toda casa árabe — todos afirmam ter “a receita original”, mas nenhuma é igual à outra. Cada família guarda a sua versão, passada de geração em geração.

    Segundo uma lenda (não confirmada, mas irresistível), a primeira esfiha teria surgido quando uma senhora distraída esqueceu o pão aberto ao sol e decidiu cobri-lo com carne temperada para disfarçar o ressecamento. O resultado? Um sucesso que atravessou séculos — e desertos.

    Foi ali, entre esfihas e histórias, que decidi revisitar a trajetória fascinante da comida árabe — uma das mais antigas e influentes do mundo.

    (O vídeo da entrevista com o casal está no Instagram: @cozinhasemchef.dr.sidneysredni)


    A história da comida árabe: sabores que atravessaram desertos e séculos

    Da hospitalidade beduína às mesas brasileiras, a culinária árabe celebra o encontro entre culturas, fé e afeto.

    Quando falo de comida árabe, falo de encontros — de povos, de especiarias, de tradições que se cruzaram entre o deserto e o Mediterrâneo. Para mim, essa gastronomia não nasceu em um único lugar, nem pertence a um único povo: ela é fruto de séculos de trocas culturais entre regiões do Oriente Médio e do Norte da África — terras do Líbano, Síria, Jordânia, Egito, Iraque, Arábia Saudita e da Palestina histórica.

    Percebo que a mesa árabe foi moldada pela geografia e pela fé. Nas rotas de caravanas, o alimento sempre foi símbolo sagrado de hospitalidade. Servir um visitante era — e ainda é — uma forma de bênção. O pão, o khubz, representa partilha; o húmus, a generosidade do solo.

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    Ao estudar esse percurso, entendi que, com o avanço do Islã, a partir do século 7, o mundo árabe se expandiu e levou consigo não apenas a religião, mas também técnicas agrícolas e um refinamento à mesa. Ingredientes como trigo, azeite e tâmaras tornaram-se base da alimentação; especiarias como açafrão, canela, cardamomo e cominho passaram a circular entre continentes, transformando a gastronomia em um verdadeiro mapa de aromas.

    Ao pesquisar mais, descobri que, durante o período abássida (750–1258), Bagdá se tornou um dos centros gastronômicos mais sofisticados do mundo. Registros da época mostram banquetes com mais de cinquenta pratos, tratados médicos sobre digestão e receitas escritas em versos poéticos. Era comum que os cozinheiros também estudassem filosofia e medicina — afinal, acreditava-se que comer bem era uma forma de manter o equilíbrio entre corpo e alma.

    Também compreendi que a influência árabe se espalhou pela Península Ibérica durante o domínio mouro (711–1492) e moldou a base da cozinha mediterrânea. O uso do açúcar em doces, o arroz cozido em caldo aromático e o hábito de temperar carnes com limão e ervas são legados diretos desse encontro de culturas.


    A longa viagem da esfiha

    Esfihas ensinadas no curso de culinária árabe (Créditos: Arquivo pessoal)

    Embora hoje eu associe a esfiha à culinária sírio-libanesa, aprendi que suas origens são ainda mais antigas. Pesquisadores como Alan Davidson (The Oxford Companion to Food) e o historiador Charles Perry, especialista em gastronomia árabe medieval, apontam que as primeiras versões desse salgado surgiram na região da Armênia e da antiga Mesopotâmia, onde pães achatados — semelhantes ao lavash — eram cobertos com carnes moídas e assados em fornos de barro (tandoors).

    Essas receitas rudimentares se espalharam pelo norte da Pérsia, Síria e Anatólia, dando origem ao que hoje conhecemos como lahmacun (a “pizza turca”) e, mais tarde, à esfiha árabe, cujo nome vem do verbo árabe safaha, que significa “abrir” ou “espalhar”.

    Com o passar dos séculos e a expansão do Império Árabe e, depois, do Império Otomano, essas preparações se misturaram, adaptando temperos e técnicas locais. Assim, a esfiha tornou-se uma receita compartilhada — herdeira de várias civilizações, moldada pela geografia e pelo tempo.

    Séculos depois, no fim do século 19, observei que a imigração sírio-libanesa trouxe novamente esses sabores ao Brasil. Fugindo de conflitos no Império Otomano, famílias chegaram com poucas posses, mas muita tradição. Trouxeram o trigo, o grão-de-bico, o tahine e, sobretudo, o costume de receber bem.

    Com o tempo, as esfihas e os quibes conquistaram padarias e restaurantes — e hoje a esfiha divide espaço com a coxinha como um dos salgados mais queridos do país. Descobri, inclusive, que se estima que a esfiha seja o salgado mais vendido do mundo, ultrapassando em popularidade até o hambúrguer em algumas regiões do Oriente Médio.

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    Entre o mito e a mesa

    Hoje, sinto que a culinária árabe faz parte da paisagem afetiva do Brasil. Ela está nas feiras, nas padarias e nas mesas de domingo. E, para mim, seu maior segredo é este: transformar o simples ato de comer em partilha — de sabores, de histórias e de afeto.

    Dizem — em outra lenda não menos apetitosa — que o segredo da boa comida árabe está em cozinhar com as mãos e o coração, porque as colheres, sozinhas, não entendem de saudade.

    E foi assim naquele domingo: entre farinha, risadas e histórias milenares, descobri que aprender culinária árabe é, no fundo, aprender a viver com mais generosidade. Afinal, como diriam os antigos mercadores das rotas do deserto, “quem divide o pão, nunca passa fome”.

    (Créditos: Arquivo pessoal)

    Curiosidades históricas

    Ao longo dessa imersão, aprendi que as primeiras receitas registradas de húmus datam do século 8, em manuscritos de culinária do Egito mameluco. Descobri também que, durante o Califado Abássida, em Bagdá, já existiam cozinhas organizadas com funções específicas — verdadeiros antepassados dos atuais restaurantes.

    Soube ainda que a esfiha (ou sfiha), possivelmente originária da região da Armênia e da antiga Mesopotâmia, ganhou fama mundial no século 20, quando se popularizou nas padarias e redes de fast-food do Oriente Médio e da América Latina. Hoje, é considerada o salgado mais vendido do planeta.


    Gratidão e reencontros

    Mais do que um curso, aquele domingo foi, para mim, uma verdadeira imersão em memórias e significados. Entre as histórias contadas por Solange e a dedicação silenciosa de Márcio, aprendi que cozinhar é também um ato de generosidade — de quem ensina, de quem aprende e de quem compartilha a mesa.

    Agradeço ao casal pela acolhida, pelo conhecimento transmitido com tanto carinho e por mostrarem, com simplicidade e entusiasmo, que a cozinha é um espaço de reencontro: com as raízes, com o outro e comigo mesmo.

    Voltei para casa levando mais do que receitas — levei um pedaço da alma árabe e a certeza de que o verdadeiro tempero da vida está nas histórias que partilhamos à mesa.

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    * A opinião dos nossos colunistas não reflete necessariamente a visão do portal spriomais.

    Dr. Sidney Sredni é neurologista, mas também tem outra paixão: a cozinha! Desde 1984, ele vem aperfeiçoando suas habilidades culinárias e técnicas em cursos, leituras e viagens. Essa jornada, que começou por necessidade, logo virou um hobby sério e parte fundamental de sua terapia pessoal.
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    Sergio Ribeiro
    Sergio Ribeiro
    1 mês atrás

    Muito interessante. Aprendi sobre a culinária árabe, fatos históricos curiosos e ligações entre a culinária e a cultura árabe. Mandou bem, Sidney!

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    Disk 2




    Vista Santana


    Pref SJC

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