
Quando pensamos em ESG, normalmente falamos de clima, água, emissões, governança, diversidade. Mas existe um ponto que ainda recebe menos atenção do que deveria: o papel da liderança feminina como variável estrutural para o desempenho ESG. E não é opinião, é dado, ciência e evidência.
Um estudo recente apresentado na Fundação Getúlio Vargas, analisando empresas listadas na Malásia, traz uma conclusão que deveria acender um alerta (e um caminho) para o Brasil: a presença de mulheres em posições de liderança, especialmente na gestão executiva, melhora de forma consistente e mensurável o desempenho ESG das empresas.
E a parte mais interessante: não é apenas a diversidade no conselho que faz diferença. Segundo a pesquisa, o impacto mais forte aparece no nível gerencial, onde decisões operacionais acontecem, processos são criados e a cultura é moldada no dia a dia. Ou seja: diversidade no topo é símbolo. Diversidade na gestão é transformação.
Esse estudo ajuda a desmontar uma crença comum: a de que incluir mulheres serve apenas para “equilibrar a fotografia”. Não, a mudança é estrutural.
Empresas com maior presença feminina:
- Apresentam melhor desempenho ambiental (E)
Tomam mais decisões de longo prazo, adotam políticas preventivas e priorizam eficiência. - Avançam mais nas práticas sociais (S)
Aumentam a inclusão, reduzem rotatividade e fortalecem a segurança psicológica. - Têm governança (G) mais robusta
Trazem mais transparência, menos tolerância a desvios e maior alinhamento estratégico. Não é discurso; é estatística.
Se o estudo foi feito na Malásia, por que importa para o Brasil? Porque ambos são mercados emergentes, com desafios parecidos, estrutura hierárquica tradicional, baixa presença feminina na alta gestão e setores industriais dominantes.
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No Brasil, segundo o IBGE, mulheres ocupam apenas 37% dos cargos gerenciais e menos de 18% das cadeiras em conselhos de administração. Já em tecnologia e engenharia, essa presença cai para menos de 15%.
Não dá para falar de ESG no Brasil sem reconhecer que governança e inclusão são tão importantes quanto carbono, água e energia.
A equação que as empresas ainda não perceberam
Quando falamos que uma empresa quer ser ESG, a pergunta deveria ser: “Quem toma as decisões dessa empresa?”. Porque não existe sustentabilidade sem pluralidade de visões.
E, segundo o estudo da FGV, as empresas que realmente performam em ESG são aquelas em que:
✔ Há mulheres em posições decisórias reais
✔ A diversidade aparece na gestão operacional, não só no board
✔ A governança enxerga inclusão como estratégia, não como marketing
✔ O compromisso é contínuo e baseado em métricas, não em slogans
É exatamente esse o ponto que conecta diversidade e governança: empresas que se organizam melhor tomam melhores decisões, inclusive ambientais. ESG é sobre água, carbono e sociedade, mas é também sobre quem tem voz, poder e influência nas escolhas que definem o futuro.
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O recado para os líderes e para o futuro do ESG
ESG não é selo; é comportamento organizacional. E comportamento começa e termina nas pessoas.
- Se queremos empresas mais sustentáveis, elas precisam ser mais diversas;
- Se queremos decisões mais inteligentes, precisamos de lideranças mais plurais;
- Se queremos governança forte, precisamos incluir quem historicamente ficou de fora.
O estudo da FGV reforça: performance ESG é consequência direta de quem está sentado na mesa das decisões. No fim, diversidade não é pauta social. É estratégia corporativa de alta performance.