
Domingo, 19 de outubro. Por volta das 18h, mais uma vez olhava para cima, admirando a fachada sofisticada de um marco da cidade de São Paulo. Ao adentrar o prédio, buscava na memória como era o saguão, mas as lembranças se confundiam.
No elevador, e na mesma velocidade do mesmo, um vendaval de sentimentos me atravessou. Lembrei de como eu e meu irmão adorávamos a sensação de frio na barriga ao sair ou chegar rapidamente, em uma distância para nós, na época, impressionante.
Ao mesmo tempo, senti saudades da figura materna, que nos levava para tomarmos chá da tarde — e nem precisou do aroma do chá recém-servido para a infância voltar inteira.
Lembrei-me de quando subíamos para aquelas tardes que pareciam um pequeno ritual de elegância. As toalhas brancas, o tilintar das colheres, o reflexo das bandejas de prata — tudo permanecia vivo na memória, mesmo que o tempo tivesse levado parte dos protagonistas.
Erguido no coração de São Paulo, o Edifício Itália é uma das construções mais emblemáticas da cidade. Com 165 metros de altura e 46 andares, foi concluído em 1965 e, dois anos depois, em 1967, inaugurou o espaço que se tornaria um dos mais icônicos da gastronomia brasileira: o Terraço Itália.
Desde sua abertura, o restaurante se transformou em um símbolo da alta gastronomia e da vida social paulistana. Mais do que um local para se comer bem, o Terraço Itália é um mirante privilegiado, um palco de encontros e celebrações que acompanham a própria história da metrópole.
À noite, as luzes de São Paulo formam um tapete cintilante visto das janelas panorâmicas, e o salão principal parece suspenso entre o céu e a cidade.

Apreciando a paisagem deslumbrante, mas que infelizmente não fomos agraciados com um pôr do sol limpo neste dia — que, apesar da época do ano, estava frio e chuvoso — lembrei novamente de estarmos à janela, garotos pequenos nos divertindo, observando como tudo era pequeno olhando lá de cima.
As pessoas eram baixas, os carros pareciam de brinquedo, ao mesmo tempo que olhávamos o horizonte sonhando como seria o futuro.
Arquitetura, origem e o Circolo Italiano
O Edifício Itália foi projetado pelo arquiteto Franz Heep, nascido na Alemanha e radicado no Brasil, responsável por algumas das obras modernistas mais expressivas de São Paulo.
A construção marcou o auge da verticalização do centro da cidade e simbolizou a confiança no crescimento da capital paulista durante as décadas de 1950 e 1960.
Idealizado pelo Circolo Italiano di San Paolo, fundado em 1911 por imigrantes italianos, o edifício foi concebido não apenas como um empreendimento comercial, mas como um centro cultural e social da comunidade italiana no Brasil.
Quando o Terraço Itália foi inaugurado em 1967, ele passou a funcionar sob a administração do próprio Circolo, como uma extensão de sua vocação de hospitalidade, convivência e promoção da cultura italiana.
O restaurante e seus grandes chefs
O Terraço Itália sempre prezou pela excelência culinária e pelo serviço impecável. Três nomes marcaram de forma especial sua trajetória:
- Pasquale Mancini, primeiro grande chef da casa, trouxe o refinamento das técnicas italianas clássicas e ajudou a consolidar o restaurante como referência de sofisticação.
- Roberto Cerea, do estrelado restaurante Da Vittorio, na Itália, colaborou em projetos especiais, trazendo um toque contemporâneo e internacional à cozinha.
- Roberto Ravioli, que assumiu em momentos marcantes, foi o elo entre a tradição e a modernidade, imprimindo o sabor da Itália com identidade brasileira.
Com esses e outros nomes, o Terraço Itália construiu uma reputação que ultrapassa gerações, tornando-se um espaço de celebração e memória.
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Divisão dos andares, usos e vistas
O Terraço Itália está organizado em andares distintos, cada um com seu próprio espaço, função e panorama da cidade:
Restaurante: localizado em um andar inferior, oferece uma vista panorâmica de aproximadamente 180°, voltada para o Vale do Anhangabaú e a Avenida Ipiranga. As mesas, distribuídas em salões independentes, têm janelas amplas que proporcionam uma visão parcial, mas generosa, do horizonte paulistano.
Bar e outras salas: situados no andar superior, proporcionam outra vista de cerca de 180°, voltada para diferentes áreas da cidade. Este andar possui um histórico multifuncional rico: ao longo dos anos, já recebeu boates, festas, eventos culturais, reuniões, conferências e jantares, sempre promovidos pelo Circolo Italiano, refletindo a intenção original de criar um espaço de convivência social e cultural para a comunidade italiana.

Cada espaço mantém sua identidade própria, e cada ângulo guarda uma paisagem diferente, permitindo que a cidade se revele aos poucos.
Ao percorrer os dois andares, é possível contemplar quase 360° do horizonte paulistano, mas cada ponto isoladamente oferece uma perspectiva parcial e exclusiva, reforçando a diversidade de experiências e vistas que o Edifício Itália proporciona.
Memórias pessoais e experiências
Sentado na mesa do bar, apreciando a paisagem e saboreando um espumante acompanhado de quitutes deliciosos, não pude deixar de lembrar das idas com colegas de escola, já na adolescência, para simplesmente sentarmos descontraidamente e comermos um consomê — afinal, éramos estudantes.
E não poderia deixar de recordar os eventos e as noites na boate, onde literalmente dançávamos sobre a cidade, ainda mais depois de alguns goles a mais…
Posteriormente, fomos conduzidos ao auditório, onde pudemos apreciar os outros 180° de panorama da cidade e participar de um evento cultural relacionado a assuntos médicos. Embora não tenhamos ido ao restaurante, a experiência gastronômica e cultural foi igualmente memorável.
Símbolo de São Paulo
Mais do que um restaurante panorâmico, o Terraço Itália é um símbolo da hospitalidade paulistana. Em meio às transformações do centro, resistiu ao tempo sem perder o brilho, mantendo-se como um espaço onde tradição e elegância caminham juntas.
Ao longo das décadas, tornou-se ponto de encontro de gerações: casamentos, jantares, reuniões e celebrações se misturam à história de quem já viveu momentos inesquecíveis ali. O restaurante segue sendo, para muitos, um espaço onde a memória afetiva e a boa gastronomia se encontram a mais de 160 metros de altura.
A fachada do prédio continua encantadora, imponente e silenciosa, como se observasse o tempo com a serenidade de quem já viu a cidade mudar tantas vezes. Nunca consigo desviar os olhos, e sigo aguardando a oportunidade de retornar a mais um evento que deixará lembranças positivas na memória.