
A principal preocupação de Isabela Moretti, mãe de Arthur, de 15 anos, é com o futuro do filho. Autista de nível 3 de suporte, ele depende de auxílio constante para atividades básicas, e a mãe sabe que não poderá acompanhá-lo para sempre. “Um dia eu não vou estar mais aqui. Quanto mais independente ele for, melhor para ele e para quem estiver ao lado”, desabafa.
Isabela lembra que, por anos, acompanhou o filho em tarefas simples como tomar banho, trocar de roupa ou se alimentar. “São 15 anos ajudando ele em coisas que qualquer criança precisa aprender: arrumar a cama, guardar roupas, escovar os dentes, se organizar. Isso pesa para a família e para ele também, porque não se sente participante”, relata.
Essa realidade é comum a muitos pais e cuidadores de jovens com autismo mais severo ou outras deficiências. E é nesse cenário que surge o “Essencial para Viver”, projeto criado nos Estados Unidos e recentemente adaptado para o Brasil, hoje aplicado em clínicas do Vale do Paraíba.
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O programa
Segundo a fonoaudióloga e analista do comportamento ABA, Elisabeth Crepaldi, com mais de 40 anos de experiência na área da saúde, o método foi desenvolvido para atender jovens e adultos com diferentes diagnósticos, como autismo, síndrome de Down e deficiência intelectual. “O foco é autonomia, tolerância, comunicação e segurança. Não se trata de ensinar a viver sozinho, mas de garantir qualidade de vida dentro do ambiente familiar”, explica.
As atividades são planejadas para que a pessoa aprenda a organizar sequências do dia a dia: colocar roupas na máquina, estender no varal, guardar nos armários, participar do preparo de refeições e até lidar com momentos de descanso e autocuidado. “Quando alguém consegue pedir água, dizer que está cansado ou que quer sair de casa, já é um ganho enorme. É o direito de ser ouvido e compreendido”, acrescenta Crepaldi.
Mudanças em casa
Na prática, Isabela percebe mudanças no cotidiano. “Agora ele arruma a cama, põe a mesa, lava um prato. Isso alivia a família e faz com que ele se sinta mais útil. Ele participa mais da rotina, e a gente não precisa fazer tudo por ele”, afirma.
Ela conta que, além do Essencial para Viver, o filho também segue em casa com a ABA (Applied Behavior Analysis), metodologia que utiliza reforços positivos para estimular comportamentos. “Se ele arruma a cama direitinho, pode depois assistir ao desenho que gosta. Isso cria rotina e hábito dentro da própria casa”, explica.
Para mães como Isabela, esses avanços representam não apenas mais autonomia para os filhos, mas também uma esperança de futuro. “Aprender a cuidar de si mesmo é tão importante quanto aprender a ler e escrever”, resume.