
Taubaté não ficou conhecida no imaginário do povo brasileiro apenas por Monteiro Lobato ou pelos memes que tomaram a internet nos últimos anos. Foi também por causa de uma senhorinha criada pelo escritor Luis Fernando Verissimo, que morreu neste sábado (30), em Porto Alegre, aos 88 anos.
A “Velhinha de Taubaté” se tornou, na década de 1980, um dos símbolos mais populares da crítica política bem-humorada do autor, e acabou dando fama inesperada à cidade.
Quem era a Velinha de Taubaté
A personagem era simples. Uma senhora pacata, que passava o dia em frente à televisão acreditando em cada palavra dita por políticos e autoridades. Mas, por trás da ingenuidade, havia ironia.
Criada durante o governo do general João Figueiredo, último presidente da ditadura militar, a Velhinha era apresentada como “a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo”. Um exagero proposital que fez gerações de leitores rirem e refletirem.
Por que Taubaté?
Verissimo nunca explicou com todas as letras por que escolheu Taubaté como berço de sua personagem. Há quem diga que foi apenas pela sonoridade, pela sigla VT (TV ao contrário). Mas, intencionalmente ou não, o escritor colocou a cidade do Vale do Paraíba no centro da vida política nacional.
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Ao longo de mais de duas décadas, a Velhinha de Taubaté apareceu em crônicas, livros e jornais, sempre reagindo com candura às crises e escândalos de Brasília. Até que, em 2005, no auge do escândalo do Mensalão, Verissimo decidiu anunciar sua morte.
“Morreu, no último dia 19, aos 90 anos de idade, de causa ignorada, a paulista conhecida como ‘A Velhinha de Taubaté’”, abriu a crônica publicada em agosto de 2005, no Estadão.
A “morte” da Velhinha de Taubaté
No texto “Velhinha de Taubaté (1915-2005)”, Verissimo descreveu a morte da personagem diante da TV, entre goles de chá e bolinhos de polvilho.
“A Velhinha acreditara em Lula desde o começo e até rebatizara o seu gato, que agora se chamava Zé. Acreditava principalmente no Palocci. Ela morreu na frente da televisão, talvez com o choque de alguma notícia. Mas a polícia mandou os restos do chá que a Velhinha estava tomando com bolinhos de polvilho para exame de laboratório. Pode ter sido suicídio”, encerrou assim o texto.
O fim trágico da Velhinha foi a forma de Verissimo mostrar que até sua personagem mais ingênua não conseguia mais acreditar diante de tantos escândalos de corrupção. A morte era apenas fictícia, mas cheia de significado.
Ainda assim, a Velhinha nunca deixou de habitar a memória do Brasil. Em entrevistas posteriores, o escritor brincava com a ideia de que ela poderia ter sido clonada ou mantida viva por aparelhos, uma brincadeira para enfatizar a ideia de que sempre haverá alguém disposto a acreditar em qualquer promessa.
Em entrevista ao Estadão em 2016, perguntado se ainda haveria muitas Velhinhas de Taubaté, Verissimo foi categórico: “Estamos cheios de velhinhas de Taubaté por aí”.