
O jornalista José Guilherme Ferreira, meu amigo Zé Gui, lançou um livro de poemas na semana passada, no Parque Vicentina Aranha. O nome? “Loci Poemas”. Recomendo.
Tão logo recebi das mãos do autor meu exemplar autografado, eu, curioso que sou, passei a folhear a obra até me deparar, na página 60, com os primeiros versos do poema “Sementes”.
Eles dizem assim: o que houve/ (da raiz à fruta)/ sempre há/ na semente/ desprezada. Fiquei com eles rondando a minha mente por dias seguidos, indo, vindo, se escondendo em algum afazer cotidiano para ressurgir mais adiante, em um estalo.
No que pensei? No tempo, no passar do tempo, na vida, na herança que acreditamos deixar em atos, palavras, desejos, omissões, nos sonhos — realizados ou não —, no vazio, tudo junto e misturado.
Que presente bom que a vida nos dá ao encontrar amigos que nos estimulam a sentir e a pensar para muito além de nós. Falando de amigos, li, semanas atrás, duas obras de duas amigas distantes, mas muito queridas, ambas também jornalistas.
De Marleth Silva, li “Na casa do pai”, romance breve que, ao narrar a viagem sem volta de decasséguis ao Japão, fala, em suas 108 páginas, de família, ruptura, encontros, desencontros, descobertas.
Uma narrativa cativante. De Rosane Tremea, li “Cecília, Antonio e eu”, livro que narra a trajetória de um casal de imigrantes italianos vindos para o Brasil em 1883, uma mistura de ficção e memória, construída a partir de documentos, registros de família, relatos de época. A saga dos bisavós da autora mexeu com a parte “oriundi” do meu sangue.
Marleth e Rosane têm a família como centro de suas obras. Família que se junta, se separa, se redescobre, que, de semente, com o tempo, gera frutos.
No quebra-cabeça de Zé Guilherme, o tempo também é o senhor oculto da narrativa e dos desenhos, entre viagens, paisagens, pessoas, memórias.
Tenho pensado muito no tempo…
Não como em Carlos Drummond de Andrade, já que meus ombros não suportam o mundo. Nem como Caetano Veloso, que enxerga nele um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho. Mas o tempo que passa indiferente como as águas do Paranapanema, o rio que corta minha terra, caudaloso e voraz na correnteza até se lançar em salto, represa abaixo, roncando como fera ao se despedaçar em cascata no abismo, em direção à Garganta do Diabo.
Corre alheio a quem olha, passivo, da margem; corre mais belo que o Tejo de Fernando Pessoa, corre mais largado que um cão sem plumas, corre sem raiz, sem fruta, apenas uma semente em busca do mar. Quem olha, vê o rio. Só o rio vê, no fim de seu caminho, corredeira abaixo, o mar.
Segue o baile…
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