
O Brasil sediará a 30ª Conferência das Partes sobre Mudança do Clima, a COP30, em um dos lugares mais simbólicos do planeta: a Amazônia. A escolha da cidade de Belém como anfitriã do evento carrega uma mensagem potente: colocar a floresta e seus povos no centro da agenda climática global. Mas junto com esse protagonismo, surgem também grandes desafios.
O principal deles, neste momento, parece estar no campo da logística. Com expectativa de receber mais de 50 mil pessoas de diferentes partes do mundo – entre representantes de governos, cientistas, ativistas e jornalistas – a cidade enfrenta uma pressão inédita sobre sua infraestrutura, especialmente no setor de hospedagem.
Segundo dados do Valor Econômico, os preços das diárias em Belém dispararam desde o anúncio do evento. Em alguns casos, o valor que antes era de R$ 300 passou a ser negociado por até R$ 6.000, um salto de quase 1.900%. A matemática é simples: com oferta limitada e demanda altíssima, o mercado reagiu como costuma fazer em grandes eventos globais. A questão é que, ao contrário de outros encontros, a COP se propõe a ser inclusiva, diversa e plural.
É aí que entra o dilema. Como garantir que vozes essenciais – como as de países em desenvolvimento, comunidades tradicionais e cientistas independentes – estejam presentes, se os custos de participação se tornam proibitivos? A pergunta não tem resposta fácil, mas já mobiliza debates e medidas por parte dos organizadores.
Entre as soluções colocadas na mesa, estão a reserva de cerca de 2.500 quartos com tarifas subsidiadas para delegações específicas, a contratação de navios-cruzeiro com mais de 5.000 leitos e a adaptação de espaços alternativos como escolas e alojamentos temporários. Belém, atualmente, conta com 36 mil acomodações formais – número abaixo do necessário para comportar todos os participantes.
Também há conversas sobre a criação de programas de hospedagem solidária, controle de preços e até subsídios internacionais. Não seria a primeira vez que a criatividade se torna aliada em momentos como esse: em outras edições da COP, famílias locais ofereceram hospedagem gratuita ou a preços acessíveis para garantir que o espírito de cooperação não se perdesse no meio da planilha de custos.
É importante lembrar que o desafio não é exclusivo do Brasil. Outras edições da conferência também enfrentaram dificuldades logísticas, e o aumento de preços em cidades-sede é uma realidade conhecida. O que torna Belém um caso singular é a combinação entre importância estratégica e capacidade limitada, o que exige um cuidado extra na hora de equilibrar expectativas e realidade.
O simbolismo da Amazônia como palco da COP é inegável. Trata-se de uma região que concentra mais de 10% da biodiversidade mundial, 20% da água doce superficial do planeta e um patrimônio socioambiental de valor incalculável. Realizar a conferência ali é, sem dúvida, uma forma de reconhecer a urgência climática com os pés no chão da floresta.
Mas a COP é mais que um palco – é também uma construção coletiva. A agenda climática global precisa de todas as vozes, especialmente as que historicamente foram deixadas de fora. Tornar essa participação possível vai além da boa intenção: é um teste de coerência para os princípios que se defendem.
Se o Brasil conseguir transformar esse desafio em solução, o evento pode deixar um legado duradouro, não apenas para a cidade ou para o país, mas para toda a governança climática global. No final, não se trata apenas de organizar uma conferência, mas de provar que é possível, sim, fazer diferente. E que inclusão, no contexto climático, começa antes mesmo da cerimônia de abertura.
Confira também: Você ainda vai sentir sede. E não vai ser de lucro!